LULA: A DIALÉTICA DO EFEITO E DO REJEITO

José Alcimar de Oliveira*


Que o que gasta, vai gastando o diabo de dentro da gente, aos pouquinhos, é o razoável sofrer. E a alegria de amor – compadre meu Quelemém diz. Família. Deveras? É e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é... Quase todo mais grave criminoso feroz, sempre é muito bom marido, bom filho, bom pai, e é bom amigo-de-seus-amigos! Sei desses. Só que tem os depois – e Deus, junto. Vi muitas nuvens (Guimarães Rosa).


01. Sob a perspectiva do ser social, a condição antecedente de toda a nossa história (conforme o Mouro de Trier) está, naturalmente, na existência de seres humanos vivos. Não houvesse o ser social no presente, desapareceriam o passado e a expectativa de futuro. Desse modo, o único espaço da ação reside no tempo presente. Sobre o passado, o máximo que podemos fazer está limitado ao campo da interpretação. E é vazia toda promessa de futuro alienada da ação presente. Adorno nos fala da necessidade de, no presente, elaborar o passado sob o crivo do esclarecimento, jamais sacralizá-lo (nem demonizá-lo, diria) como fonte de autoridade. O que debilita o pensamento não é a contradição, mas o maniqueísmo. O maniqueísmo é uma forma rebaixada de contradição. É a contradição expropriada de dialética.

02. Em distintos modos a dialética é o modo de ser do mundo natural e do mundo social. O único ser imune à dialética é Deus, e no plano da razão revelada, que não é o plano do ser social. A chamada razão revelada é refém da razão histórica. Sabe-se que o Deus do Antigo Testamento se define pela absolutização do princípio metafísico e parmenídico da identidade: Eu sou Aquele que sou. Quem se define pela absolutização do princípio dialético e heraclítico da contradição é o Mefistófeles do Fausto de Goethe: Eu sou aquele que sempre se nega. Digo absolutização sob o aspecto de ensejar uma interpretação maniqueísta. O que exige uma exegese honesta. Senão, como admitir a afirmação do Gênesis de que Deus se arrependeu de ter criado o homem. E isso muito antes do Brasil existir. Um Deus que se arrepende teria que ser necessariamente dialético. O que vai de encontro à sua natureza imutável e onisciente.

03. No Brasil do século XXI o maniqueísmo se desloca da religião para a política. Ou para a política como religião. Para um lado e para o outro, o horizonte imediato, porque refratário a mediações e à crítica, é sempre o maniqueísmo. Nesta segunda semana de março de 2021, em razão da decisão do Ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, de anular as condenações do ex-presidente Lula (PT) nos processos da (a cada dia mais questionada) operação Lava Jato, reacendeu com força a chama reacionária do maniqueísmo. Não basta ao maniqueísmo a dicotomia antidialética entre o bem e o mal. O mal deve ser personificado. Ninguém acredita em mal abstrato. Para as consciências dominadas pela contradição carente de dialética e mobilizadas pelo ódio organizado como política, que outra coisa não é senão fascismo, o mal deve ter nome, rosto e origem de classe. De Lula.

04. A história é um processo coletivo. Ela é "a substância da sociedade", segundo Agnes Heller. Mas um processo que não dispensa o papel do indivíduo. Plekhanov já o demonstrou. É certo que sozinho não se faz luta coletiva. Sozinho Lutero não faria a Reforma Protestante (século XVI), mas sem ele, com sua sensibilidade para objetivar o chamado Zeitgeist (o espírito do tempo, o momento oportuno, ou kairós), seguramente a história da Reforma teria tomado outro rumo. Não são muitos na sociedade os indivíduos dialéticos. E aqui penso a dialética no sentido platônico, como se encontra em sua Politeia, no Livro VII: é dialético somente aquele que é capaz de elaborar a compreensão do todo, quem não for, não é. E ponto final. Trata-se de um princípio mais ligado à sabedoria do que à formação especializada do cientista. Nem todo cientista é sábio. Aliás, o Geógrafo-Filósofo Milton Santos já lembrava que no Brasil aumenta o número de letrados e diminui o número de intelectuais.

05. A sujeitos históricos como Jesus de Nazaré, Thomas Müntzer, Lutero, Antônio Conselheiro, Patativa do Assaré, Carolina Maria de Jesus, Elizabeth Teixeira, Lula, cabe bem a denominação de indivíduos dialéticos. Não fosse isso, como explicar o alvoroço (à direita e à esquerda), com todas as contradições da quadra de pandemia e tragédia humana e social em que vivemos, que o histórico discurso de Lula no dia 10 de março de 2021provocou na arena política brasileira? Haveria essa repercussão se em lugar de Lula tivessem discursado Ciro, Haddad, Dino, FHC? Seguramente não. E aqui não nego a nenhum desses sujeitos históricos qualidades dialéticas. Não sei se poderia falar o mesmo quanto ao carisma e ao profetismo. Antônio Conselheiro, por exemplo, não fez pós-doc em dialética na USP. Foi inclusive vítima do preconceito positivista de Euclides da Cunha. Mas sem Conselheiro não haveria a revolta de Canudos, nem Euclides teria escrito Os sertões. Na verdade, Canudos dialetizou Euclides.

06. Conselheiro e Lula, filhos de um Brasil até hoje bestializado pela República, partilham do mesmo destino de ódio e preconceito de classe que a autocracia burguesa destila contra os senzalados. Eles provocam mal-estar na ordem e no refinamento dos habitantes da Casa Grande. Conselheiro foi expulso do jogo pela força militar, descomunal e sanguinária, mobilizada pela República de poucos e sua República de Canudos foi reduzida a pó. Lula está no jogo. O PT está no jogo. Mas penso que não terão forças para jogar sozinhos. O desafio está posto, e exigirá grandeza para combinar forças à esquerda e ao centro em que a construção de um projeto de país seja o definidor político das movimentações eleitorais. Do contrário, a direita, que já nasceu orgânica e só se divide no acidental, continuará dominando o jogo e falsamente polarizando entre si.

07. Uma polarização verdadeira implica luta de classes. Seguramente Lula não fará essa aposta. Muitos dirão que não há condições, nem objetivas nem subjetivas para isso. É certo que comparados ao desmonte atual, os 13 anos e meses de governo de colaboração de classe podem parecer um avanço. Mas contraditoriamente o que pode ser lido como avanço colaborou, ainda que em grau menor, para o atual quadro regressivo: a inclusão social pelo consumo, apartada da formação política da classe e assepsiada do método da luta de classes, alimentou e alimentará o moinho da direita. A esquerda classista está diante de um bívio: optar pelo isolacionismo, apartada da base ou participar do jogo, resistindo à ciranda de reboquismo: lulopetismo a reboque do centro para a direita e a esquerda classista a reboque do lulopetismo. Não há como desconhecer a força de Lula e do PT, mas vamos abrir mão de mover essa força para a esquerda classista?

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* José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, no dia 14 de março do ano (ainda coronavirano) de 2021, há 138 anos do falecimento de Marx e três anos do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

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