Lucidez ou esperteza

Nossa capacidade de apreensão da realidade estaria comprometida, admitíssemos como insana a conduta do Presidente da República, em relação à pandemia – e tudo o mais. Parece-me demasiado leniente atribuir apenas à psicopatia do ex-capitão o modo como ele vive, manifesta-se e decide. Converge com isso propósito de que nem todos parecem se ter dado conta, não obstante o rol copioso de antecedentes que a História registra. De Nero a Hitler, muitos outros no entremeio, o incêndio de Roma e os judeus incinerados não podem ser apagados da memória dos povos. Fazê-lo significa emprestar solidariedade e apoio aos praticantes da necropolítica que o imperador romano e o führer impuseram, cada qual ao seu tempo. Dito isso, comento recente texto publicado por Ricardo Noblat, de autoria de Cristovam Buarque, um ex-esquerdista. Ainda que identifique no texto do ex-reitor da UNB velada insinuação e alta dose de inconsequência, pelo menos parcialmente concordo com o que ali está expresso. A insinuação corresponde à indicada necessidade de reunir todas as forças do que ainda se teima chamar de oposição, e nelas escolher nome que impeça a reeleição do atual Presidente. Um tertius, portanto, seria um escolhido. Quem sabe o próprio articulista?! A inconsequência consiste nos riscos de considerar insanas a expressão e as decisões do Presidente. A prevalecer essa interpretação, estaria posta a peça fundamental da defesa dele, perante a Justiça brasileira e os tribunais internacionais. Insanos são inimputáveis. Minha concordância dirige-se apenas à falta de lucidez apontada pelo ex-senador e ex-governador do Distrito Federal. Nesse caso, ele diz bem, quando se refere à escolha de prioridades da oposição(!) e aos interesses secundários que a animam. O combate que o governo Federal e seus aliados negam à pandemia, neste caso se repete, quando os descontentes esmorecem no combate ao governo. Fazem-se, portanto, figurantes de um processo que se mostra claro, quanto ao agravamento de nossa realidade social e ao crescente desprestígio internacional experimentado faz dois anos. Projetos de poder, mais que de nação, é tudo quanto tem sido considerado, até aqui. Nem a morte de quase 300 mil brasileiros suscita nos partidos, na respectiva militância e, em consequência, na população, identificar o inimigo a ser combatido. Neste caso, a lucidez pretendida e alegada pelas lideranças partidárias pode ser colocada em dúvida. Porque mais próxima da esperteza.

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