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Liberdade incompreendida

A pretensão de levar a liberdade ao infinito encontra obstáculos que a vida em sociedade impõe. Liberdade sem restrições implica a revogação do estatuto civilizatório alcançado com a criação do Estado moderno. A necessidade de uma instância capaz de administrar, quando impossível evitar, o conflito não pode ter bons resultados, a não ser que se tenha a exata compreensão da História. Com isso, quero dizer que a forma como o Estado se manifesta e se estrutura estabelece o grau de êxito a que pode chegar. Sejam raros ou numerosos, os que têm chegado a postos influentes na estrutura oficial do Estado parecem ignorar a caminhada da barbárie à civilização. Sequer refletem sobre sua própria inserção na estrutura estatal, sempre vinculada à escolha por seus contemporâneos ou aos deveres funcionais assumidos. Carece, porém, aos ignorantes por opção a percepção de que sequer se justificaria a presença do Estado, se a sociedade não fosse organizada com a distinção de classes. O grande paradoxo deste início de milênio repousa na proximidade da pretensão estaticida: os anarquistas, tanto quanto os comunistas-raiz querem ter uma sociedade desprovida desse ente poderoso. Não, obviamente, pelas mesmas razões. Na anarquia, a meu juízo, a liberdade seria absoluta, como a justificar a máxima em cada cabeça, uma sentença. Bastará apontar o grau de maturidade diferente entre os indivíduos, para constatar a inviabilidade da pretensão. No caso comunista, o controle do Estado pelo proletariado, e não sua real extinção, constitui o cerne da proposta. Aqui, sempre será oportuno lembrar não ser mais do que isso o objetivo do capital, em processo de crescente captura e controle do poder estatal, mundo afora. Em todo caso, se há Estado e se sua extinção pura e simples é - pelo menos neste século - inimaginável, sempre a ele caberá a dirimência dos conflitos. O problema desloca-se, então, para a forma do Estado e quais as regras que regulam as relações sociais. A república fundada na tripartição dos poderes e a monarquia constitucional, as duas formas aparentemente mais bem-sucedidas, não sobreviveriam, caso a liberdade absoluta prevalecesse. Essa particularidade desemboca em dilema nem sempre compreendido, o maior desafio enfrentado pela sociedade: liberdade absoluta e descontrolada será o veneno que mata a sociedade. Restrições à liberdade só ajudarão a sociedade, se estabelecidas, segundo os interesses sociais. Como fazer os egoistas transformarem-se em democratas?

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A classe trabalhadora tem a liberdade de passar fome.

Não ter acesso à educação e à saúde decentes para sua família parece ser outra "liberdade" oferecida.

Numa sociedade desigual, a liberdade oprime e o direito liberta.

Só que no "estado de direito" brasileiro, os muros são intransponíveis.

Aqui, só o futebol liberta...

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