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Liberdade armada

Quantas guerras terei que vencer, por um pouco de paz. Esta é das mais tocantes passagens da belíssima composição Sonho Impossível, tradução de Chico Buarque de Holanda para uma canção de dois autores norte-americanos, Joe Darion e Mitch Leigh. O original e versão feita pelo nosso prêmio Camões homenageiam a imortal criatura inventada por Miguel de Cervantes. Ambos são inspirados pelo romance escrito no início do séc. XVI, desde quando o Mundo experimentou duro e tortuoso caminho civilizatório. Naquele tempo, queimavam-se pessoas vivas ou se as submetia à tortura, até a morte. Mais tarde (sec. XVIII), o conde Cesare Beccaria criava o Direito Penal e preparava o homem para novos tempos. A Resolução das pendências não se alcançava mais com a força, sendo que a pena aplicada ao criminoso ganhava caráter e finalidade educativos e de ressocialização do apenado. O uso da arma, de fogo em especial, reduziu-se drasticamente. Em algumas nações, mesmo os responsáveis pela segurança pública não as usam. A onda direitista que desaguou em nossos dias trouxe suas águas ao Brasil. Com isso, verifica-se retrocesso a período histórico anterior ao cavalo Rocinante. A montaria do cavaleiro da Mancha é lembrada aqui, porque os defensores do uso de armas de fogo são os mesmos que dizem falar em defesa da liberdade. Assemelha-los a Dom Quixote seria um despropósito. A Sancho Pança, homem rude mas generoso, também. Penso não ser despropósito lembrar que 14% das armas registradas no Brasil estão na posse do crime organizado. Não se trata de revólveres de pequeno calibre, nem de pistolas. São todas armas pesadas de uso restrito, não recadastradas, embora registradas no período 2019-2022, quando o governo do Brasil parecia querer guerrear contra seu próprio povo.

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