Jogando o casaco fora


Seria estranho ter senador filiado a partido supostamente oposicionista na liderança do governo, não fosse fenômeno surreal a atividade política brasileira. Por mais esdrúxula, talvez até contraditória, a relação fenômeno/surrealidade. Mas é isso o que constatamos, ao verificar estar investido desse papel o senador Fernando Bezerra Coelho ainda abrigado sob o pálio do Movimento Democrático Brasileiro, não mais que uma tentativa canhestra de lembrar a vibrante mobilização da sociedade contra a ditadura. Depois da denominação original, a sigla recebeu um P (de Partido), abandonado em seguida, gesto também inócuo. Os ideais ou os valores democráticos fundamentais também foram abandonados, do que a presença do senador por Pernambuco dá constrangedor testemunho. Não é estranho, nem foge aos padrões estabelecidos desde Janeiro de 2019, a tentativa de atribuir a terceiros iniciativas, ações e políticas de alguma forma nocivas à população. Neste sentido, a pandemia apenas torna mais grave e ostensiva a generalização dessas práticas. Pois o senador considera odienta a acusação de genocídio, não obstante estarmos às vésperas de contar a 500ª. vítima da covid-19. Como se houvesse brasileiro desconhecedor do funcionamento de um gabinete de ódio, em pleno Palácio do Planalto. Incomoda ao paradoxal senador emedebista a comparação do Presidente da República com o führer, haja vista a inspiração que o leva a promover aglomerações, não usar máscaras protetoras e combater toda e qualquer medida eficaz no enfrentamento da covid-19. Assusta o senador como aos que em nome dele o parlamentar atua, e com abundantes razões, a eventualidade de uma versão atualizada do Tribunal de Nuremberg. O mundo já sabe de peculiaridades marcantes do vírus no Brasil, onde o gás faltou, porque à propagação do vírus foi deixado o papel que os fornos crematórios executaram, na Alemanha do século XX. O gás escasso no Brasil, em Manaus, AM, com destaque, foi o oxigênio, não os mesmos que, bem fornecidos, preencheram as covas para onde o nazismo mandou milhões de vidas humanas. Aqui, a trágica aliança entre políticas públicas e desprezo pela vida humana ainda espera o julgamento dos contemporâneos e da História. O ódio e seus portadores, portanto, tratam apenas de desvencilhar-se dele. A esta altura, talvez já seja tarde.


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