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JESUS, SEUS FAMILIARES E DISCÍPULOS

Orlando SAMPAIO SILVA


Todos nascemos de um pai e de uma mãe. Isto é o óbvio na natureza.

Reporto-me a Jesus, aquele ser cujo nascimento divide a trajetória da humanidade em duas fases fundamentais: antes de Jesus (a. C) e depois de Jesus (d. C). Por quê “a. C.” e “d. C.”? Porque Jesus, por razões religiosas, também passou a ser referido como o Cristo (C.). Muitas pessoas se referem ao fundador do cristianismo como Jesus Cristo. “Antes de Cristo” - a.C., e “depois de Cristo” – d.C., como marcos no tempo histórico do transcurso da vida da humanidade, são expressões que simbolizam a importância fundamental da presença de Jesus em seu tempo, em meio ao povo judeu, mas, definitivamente, em meio à sociedade dos humanos. O marco temporal “d.C.” é adotado por quase todos os países do Mundo e assinala o tempo social a partir do nascimento de Jesus. Para os judeus, em seus documentos de influência religiosa, o tempo marcado a partir do nascimento de Jesus (d.C) é referido como “tempo comum” ou “vulgar”.

Em vários trechos da Bíblia, no Velho Testamento, pode-se encontrar registrado que chegaria o momento em que Cristo, um homem pertencente à linhagem tribal ou familiar de David, em nome de Deus, viveria entre os demais homens. A Bíblia (a Torá) era o Livro Sagrado dos judeus. Segundo os registros bíblicos, a presença de Cristo entre os judeus se impunha por estes estarem maculados pelos pecados, entre os quais o reiterado desprezo da crença em um único Deus, e, pela prática de rituais em cultos a outros deuses. Cristo teria o mandato divino para reorientar e corrigir a forma pecaminosa da vida do povo e reordenar a crença e o culto a um só deus, com fidelidade aos desígnios divinos anunciados por Deus ao instituir, pela intermediação de Abrahão, o povo judeu como o “povo escolhido” / o “povo de Deus”, e ao indicar a ele uma região - Canaã - para instalar-se como povo, a que seria a “terra prometida”; os judeus deveriam cultuar com exclusividade a Deus, o criador, único, e viveria em meio aos demais povos de seu tempo, politeístas (exceto os árabes, que, também, eram/são monoteístas).

Em determinado momento histórico da vida dos judeus, João, o batista, empreendeu uma ação missionária pessoal e batizou pessoas segundo um ritual diferenciado, que desviava das práticas religiosas hebraicas; era o batismo pelo Espírito Santo, com a imersão na água, deixando a circuncisão em segundo plano, menos central e fundamental, sem importância. O importante era a purificação do ser pelo Espírito Santo. João Batista era primo de Jesus e ele anunciava, aos que julgavam ser ele o Cristo, a chegada, em breve, do verdadeiro Cristo. Em sua trajetória, João Batista foi um pregador antecipador, místico e messiânico, que teve muitos seguidores, e ele próprio batizou Jesus já adulto.

Segundo a narrativa bíblica, no Novo Testamento, um dia, uma jovem chamada Maria recebeu a visita do anjo (arcanjo) Gabriel, que lhe anunciou que ela estava grávida por “obra e graça do divino Espírito Santo”, que ela seria mãe, que daria à luz um menino, filho de Deus. Nesta época, Maria estava esposada com José. Pela tradição judaica, esta situação não significava coabitação; este relacionamento entre o homem e a mulher solteiros, ocorria em um tempo de um ano a partir do compromisso para o matrimônio até a efetivação do casamento. Uma espécie de noivado. Foi neste período que aconteceu a visita do anjo Gabriel a Maria, evento em que foi anunciado que ela estava grávida de um menino. José (filho de Jacó, também chamado Heli) era um varão que pertencia à linhagem familiar bíblica de David. Da mesma forma, Maria, a esposa de José, pertencia à linhagem parental do rei David, pois o pai dela era, também, descendente desta mesma linhagem familiar. José, quando soube da gravidez, ficou enciumado, quis mesmo desfazer o compromisso do casamento, até que um anjo lhe apareceu em um sonho e lhe informou que a gravidez de Maria se efetivara por obra e graça do divino Espírito Santo. Então, José se tranquilizou. Em seguida, Maria e José se casaram. O nascimento de Jesus ocorreu quando seus pais já eram casados. Maria deu à luz a seu filho em uma manjedoura. Ao menino seus pais atribuíram o nome Jesus. O menino foi registrado no templo da religião hebraica, em Belém. José criou Jesus como seu filho verdadeiro.

Maria era filha de Joaquim e Ana. Assim consta de documentos apócrifos e da tradição da Igreja; mas, nas Escrituras, não consta esta referência à filiação. Porém, na Igreja Católica, Ana, mãe de Maria, veio a ser considerada Santa Ana ou Sant’Ana.

Ocorrera a chegada do Cristo, daquele personagem que havia sido préanunciado pelo precursor João Batista.

É neste evento do nascimento desta criança, que se encontra o grande marco temporal, que divide a história da humanidade em dois períodos: antes e depois de Cristo. A religião hebraica não considera que Jesus seja o Cristo anunciado nas Escrituras. Por isto, ainda nos dias atuais, os judeus religiosos estão esperando a chegada de Cristo, o Salvador.

O local em que nasceu Jesus ficava nos arredores da cidade de Belém, na Palestina, no centro da, hoje, Cisjordânia (Estado da Palestina).

José, um artesão judeu, era carpinteiro. Jesus tornou-se um auxiliar de seu pai em seu trabalho artesanal e manual. José, Maria e o filho Jesus viveram em Nazaré, na Galileia.

Jesus, adulto, entre os 30 e os 33 anos de idade, foi propugnador e pregador de uma reforma na religião hebraica, que veio a ser, ao longo do tempo, denominada cristianismo, por ser a religião instituída por Cristo. A reforma doutrinária instaurada por Jesus na religião hebraica preexistente se consubstanciou em uma religião monoteísta (como a hebraica e de conformidade com os preceitos bíblicos), que se fundamentava em valores humanitários que destacavam o perdão e a penitência, como meios do pecador redimir-se de seus erros, como forma de purificação do pecador; em essência, os valores e ideais do Jesus reformador se consubstanciavam em um conjunto de princípios que privilegiavam o amor, a fraternidade e a paz entre os homens e as mulheres, entre os seres humanos em geral.

João Batista foi perseguido e condenado pelo governo colonial romano de Israel, e pelos fariseus. Morreu, quando ainda era jovem, decapitado a mando do rei imodeu judaizado Herodes Antipas (subserviente aos colonizadores romanos), por indução de sua sobrinha e enteada Salomé.

João Batista era filho de Zacarias e Isabel, sendo esta prima-irmã de Maria, a mãe de Jesus. É um tema controverso qual a linhagem do parentesco entre Maria e Isabel, se pelo lado materno ou pelo paterno de Maria. Como é obscura a paternidade de Isabel, há as versões de o parentesco ser pelo lado de Joaquim (marido de Ana e pai de Maria), ou, então, pelo lado de Ana (Sant’Ana), sendo esta segunda possibilidade mais provável pelo fato de Isabel ser referida como prima-irmã de Ana. Neste segundo caso, Isabel seria provavelmente filha de uma irmã de Ana, pois Ana tinha uma irmã, que se chamava Sobe (cf. Mateus).

Isabel, esposa de Zacarias (sacerdote), era considerada estéril. Neste tempo, a responsabilidade pela esterilidade em um casal era sempre atribuída à mulher. Aos 60 anos de idade, ela engravidou de João, por interferência do divino Espírito Santo, como no caso de Maria; só que Maria não era estéril e era bem jovem. Isabel e Zacarias moravam na Judéia. Tudo segundo o Novo Testamento.

Jesus Cristo (como é geralmente denominado no mundo cristão) empreendeu sua caminhada criadora/reformadora/instituidora, acompanhado de um pequeno grupo de discípulos, os doze apóstolos, que se chamavam: [Simão] Pedro (que veio a negar por três vezes, ante os policiais romanos, ser seguidor de Jesus, mas que era o principal entre os discípulos), Tiago (primo de Jesus, provável filho [“adotivo”?] de João Batista), João, André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé (aquele que veio a duvidar da ressurreição de seu mestre), Tiago (“menor”, irmão de Jesus), Simão (o zelota), Judas Tadeu e Judas Iscariotes (o que foi corrompido por dinheiro e entregou Jesus aos policiais romanos).

O gesto de Jesus instituidor da reforma na religião hebraica - reforma que ele vinha pregando em suas peregrinações - se encontra na “santa ceia”, ocasião em que ele se reuniu, em torno da mesa, com os doze apóstolos para comemorar a Páscoa/Pessach da religião judaica, religião à qual todos eles pertenciam. Pouco depois deste episódio, teve início o seu martírio. Foi se reportando a Pedro, o apóstolo, que Jesus disse: “Pedro, tu és pedra e sobre esta pedra construirei a minha Igreja”. A Igreja Católica considera Pedro o primeiro papa.

Jesus foi perseguido e preso pelos soldados coloniais romanos por ser considerado por Caifás e pelos fariseus adversário da religião - Caifás era o sumo sacerdote da religião judaica em Jerusalém -, e o administrador romano Poncio Pilatos “lavou as mãos”, ou seja, se omitiu em face das acusações apresentadas contra Jesus. O Filho de Maria foi atrozmente torturado e morreu crucificado, aos 33 anos de idade.

Após a morte de Jesus, seus discípulos passaram a pregar a nova religião em Israel, dando continuidade à ação instituidora de Jesus. Foi nessa fase inicial do cristianismo primitivo, que logo surgiu a figura importante de Paulo, que veio a tornar-se um apóstolo no cristianismo.

Pedro (1 a.C. – 64 d.C.) e Paulo (5 d.C. – 67 d.C.) se conheceram e exerceram a missão apostólica e evangelizadora lado a lado, fraternalmente, mas, também, tiveram divergências e dissenções.

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Maria e José deram a Jesus os seguintes irmãos: Tiago (“menor”; não confundir com o outro Tiago, o primo), José, Judas, Simão, Maria e Salomé.

Foram filhos de Jesus com Maria Madalena: Efraim e Manassés. Jesus perdoou os pecados de Madalena e ela passou a ser sua seguidora.

[Uma curiosidade: os filhos de José - conhecido como o José do Egito -, filho do patriarca Jacó, também se chamavam Efraim e Manassés; outra curiosidade: o pai de José do Egito se chamava Jacó, e o pai de José - sendo este o pai de Jesus - também se chamava Jacó ou Heli]

A Igreja Católica não admite que Jesus, em seu caráter divino, tenha tido filhos em seu relacionamento com Madalena. Porém, note-se que, segundo o “Gênesis” (no Velho Testamento), Deus, ao criar o homem e a mulher, determinou: “Crescei e multiplicai-vos”. Porém, com a desobediência - a queda -, o ato sexual, em algumas interpretações bíblicas, seria considerado pecaminoso (apesar daquela determinação divina!). Daí a impossibilidade da aceitação de que Jesus, mesmo sendo, também, homem, pudesse ser pai em um relacionamento com uma mulher. Nota-se que, Jesus, em sua condição humana, era suscetível de sentimentos e de passar por todas as sensações e emoções que um ser humano pode experimentar. Exemplos: Jesus, irado, expulsou os vendilhões do Templo; Jesus, penalizado, solidário e por compaixão, perdoou a prostituta, idem a mulher adúltera e restituiu a vida a Lázaro; Jesus, alegre e sociável, transformou a água em vinho; Jesus caridoso e humanitário, multiplicou os pães e os peixes para ofertá-los aos que sentiam fome; Jesus, temendo a morte, fez seu apelo maior: “Pai! Afasta de mim esse cálice!”; Jesus, piedoso, na hora da sua morte, disse, referindo-se aos soldados romanos que o crucificavam: “Pai! Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem”; Jesus amava a humanidade. Por quê Jesus não poderia, também, sentir e vivenciar o amor reprodutivo? [Esta é uma interpretação livre desses eventos. Este autor não a postula como verdade, figurando esta meditação, no texto, como tema para estudo e diálogo]. Diga-se que a “queda” pode referir-se a desobediência, mas não, necessariamente, ao ato sexual. Sendo a manifestação divina: “Crescei e multiplicai-vos!”, uma determinação para a prática dos atos reprodutivos, haveria uma contradição entre determinar a reprodução humana e, no mesmo passo, considerar pecaminoso o ato causador da reprodução! Deus, o próprio criador, não cometeria esse descuido no esplendor dos primeiros tempos. Considere-se, também, que o relacionamento sexual reprodutivo não é registrado como pecado nos Dez Mandamentos da Lei de Deus (Decálogo), que é um conjunto de normas morais e éticas adotado tanto pela religião hebraica como pelo cristianismo.

Naquela primeira perspectiva teológica (Genesis), a desobediência em face da tentação exercida pela serpente (Lucifer) sobre Eva - a queda – teria dado origem ao pecado original. Jesus, o “filho de Deus”, mesmo com sua condição humana, era indene ao pecado. Mas, as personagens do Jardim do Eden e todos os homens e mulheres que delas descenderam estavam condenadas para sempre pelo pecado, de vez que, no cumprimento da determinação divina, após a criação: “Crescei e multiplicai-vos”, Adão e Eva tiveram filhos e filhas dos quais vieram a descender os Hebreus. Do contrário, não existiria essa descendência. Não, o criador, logo após seu ato cosmogônico (mas, principalmente, antropogênico), não condenaria as suas criaturas ao pecado pela concretização de sua determinação procriativa! A não ser que se pense que não podemos compreender os desígnios divinos!...

Para a religião católica, nos nossos tempos, Maria foi mãe apenas de Jesus, a quem ela concebeu sendo virgem. A imaculada conceição ou concepção. Na época do cristianismo primitivo dos primeiros tempos, não havia essa referência à Maria em sua condição de virgem. Durante o Concílio de Calcedônia - II Concílio de Éfeso, que se reuniu de 22 de junho a 31 de julho do ano de 431 (claro, da era cristã), a virgindade de Maria foi referida já como um dogma instaurado, definitivo. Neste Concílio, Maria foi referida como “santa virgem”, que foi “mãe de Deus / mãe de Cristo”. Estas concepções se tornaram elementos de fé, dogmas, em meio a várias denominações religiosas cristãs, porém, fundamentalmente, na Igreja Católica. A virgindade de Maria era referida pelos padres da Igreja, tais como Sto. Tomás de Aquino. Porém, nos primeiros tempos após o nascimento de Jesus, era natural a ciência, o conhecimento da paternidade de Jesus e seus irmãos, filhos do casal José e Maria.

Aquela reunião de cúpula do catolicismo acima referida estabeleceu que “Jesus é uma pessoa única divina e humana”.

Os evangelistas não foram contemporâneos de Jesus, pois viveram alguns anos após sua morte e escreveram narrativas sobre a sua vida e sobre seus ensinamentos, textos que são o núcleo fundamental do Novo Testamento. Foram evangelistas: Mateus, Marcos, Lucas e João (Evangelista).

A religião hebraica, segundo a Bíblia, fundada por Moisés como instrumento da vontade divina, era a religião do povo escolhido, do povo de Deus, os Hebreus. Jesus Cristo, um judeu descendente de David, atuou como reformador desta religião. Até que adviesse Paulo ou Saulo, esse cisma religioso era pregado e propagado apenas entre os judeus. São Paulo foi o responsável pela divulgação da nova religião fora da sociedade hebraica, levou-a a Roma e ao resto do Mundo de então. Paulo, peregrino, percorreu muitas Terras, e escreveu cartas, para levar aos povos a mensagem de amor de Jesus.


NOTA – Saulo ou Paulo, São Paulo (5 d.C. – 67 d.C.), filho de judeus, nasceu em Tarso, na Turquia (Paulo de Tarso!), e faleceu em Roma. Nascido nos domínios coloniais do Império Romano, Paulo se considerava e era considerado um cidadão romano. Era soldado romano e, como tal, perseguia os primeiros cristãos na área de Jerusalém, sendo estes considerados inimigos de Roma. Um dia, demandando Damasco, aonde ia em sua tarefa de coibidor das ações dos cristãos, na estrada, deparou-se ante uma intensa luminosidade, que o cegou, tendo caído por terra. Então, ouviu estas palavras e dialogou:

- “Paulo, por quê me persegues?”

- “Quem és, Senhor?”

- “Eu sou aquele que persegues.”

Foi aí que Paulo recobrou a visão e se converteu ao cristianismo.

Paulo - que conviveu com Pedro -, além de comparecer pessoalmente aos lugares para pregar a nova religião, escreveu e encaminhou Cartas aos Romanos, aos Corintos, aos Gálatas, aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, aos Tessalonienses, a Timóteo, a Tito e a Filemom. Suas cartas são, de certa forma, repetitivas, mas conduziam a essência e os fundamentos da religião fundada por Jesus Cristo, o cristianismo em seus princípios e valores originários. (Fonte: Novo Testamento)


[As referências a narrativas presentes no Velho Testamento e suas interpretações constantes deste texto estão fundamentadas na obra de autoria do autor deste artigo: Novas Interpretações Referentes à Formação e à Vida do Povo Hebreu/Judeu – Personagens Bíblicas, Ed. Scortecci, São Paulo, 2021]

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