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Incompetência ou inapetência

Sejamos sinceros: o frustrado atentado terrorista do último domingo tinha tudo para ser previsto. Não apenas porque este tem sido expediente de que se utilizam os derrotados nas urnas, hoje como ontem. Nem agora se testemunha pela primeira vez a tentativa de impedir que a vontade de 60 milhões de brasileiros prevaleça. Além dos exemplos indicados em nota postada neste blog (Não é o primeiro, Na Onda, 26-12-2022), as rebeliões de Jacareacanga e Aragarças revelam a tendência e a tradição golpistas de partes das forças armadas brasileiras. Àquela época, segunda metade dos anos 1950, na impossibilidade de impedir a posse de Juscelino Kubitscheck de Oliveira, como pregava Carlos Frederico Werneck de Lacerda, oficiais da Aeronáutica roubaram aviões e se instalaram nos ermos amazônicos. O mínimo que se poderia esperar dos órgãos da segurança pública, individual e coletiva, é que tivessem aprendido a lição que lhes deu o general Henrique Duffles Teixeira Lott. Graças a ele, o escolhido pelos eleitores foi empossado e as duas rebeliões posteriores sufocadas. Tais fatos, perdidos em passado de que a grande maioria dos brasileiros sequer tem conhecimento, não se repetem. Não é de uma farsa que se trata, portanto. O traço mais diferente dos dois momentos diz respeito à origem e inspiração do terrorismo atual, emanado do mais ato centro de poder. Já não se perquire mais a respeito da intimidade dos atuais ocupantes do Palácio do Planalto com grupos civis armados, à força do estímulo, da promoção de facilidades para o armamento da população civil e dos grupos delinquentes constituídos em Estado paralelo. Os aplausos à conduta criminosa desses grupos estão registrados, sendo que a recente concessão de indulto aos chacinadores da penitenciária do Carandiru é demasiado ilustrativa. No entanto, dizem-se em pleno funcionamento os órgãos encarregados de zelar pela segurança, civis e militares, em todos os níveis. Desde o Gabinete de Segurança Institucional até a delegacia de polícia de bairro, montanhas de dinheiro têm garantido a aquisição de equipamentos modernos, capazes de facilitar a execução das tarefas constitucionalmente determinadas. Nem por isso, muitas dessas instâncias se têm desviado de suas legítimas funções, não sendo rara a ocorrência dos crimes que deveriam prevenir e combater com a direta participação de membros dessas corporações. As razões por que isso se fez realidade, a rigor, não vem merecendo a atenção que a sociedade tem o direito de exigir das autoridades respectivas. A ocupação de áreas consideradas de segurança nacional, então, fez dessas áreas território onde se instalaram o que os futuros Ministros da Justiça (Flávio Dino) e das Relações Institucionais (Alexandre Padilha) chamam com propriedade incubadoras de terroristas. Atribuir qualificativo para a forma como os fatos vêm sendo encarados pelos atuais responsáveis tanto pode chamar-se incompetência profissional como inapetência. Em qualquer das hipóteses, os resultados não podem fugir à rigorosa responsabilização dos dirigentes desses órgãos, cuja leniência (ou cumplicidade?) há de receber as penas cabíveis, ultimado o devido processo legal.

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