Heróis de fancaria
Atualizado: 27 de mar. de 2022
Em tempo de mentira, até as utopias têm que ser reformuladas. Aquele lugar ainda onde não chegamos precisa ter alterados seus caminhos. O livre arbítrio, de que se diz serem dotados todos os animais chamados superiores, ´por exemplo, perde seu sentido, quando utilizado para consumar a submissão. De pessoas e povos, diga-se por oportuno. Refiro-me não às vidas sacrificadas e à destruição em marcha no leste europeu, nem aos pretextos e eventuais razões apresentadas pelas partes em conflito. As ostensivas, Rússia e Ucrânia, e as outras que tratam de esconder suas faces. Pretendo apenas tratar da pretensa participação de brasileiros alinhados às tropas mercenárias que atuam ali. Como a ratificar a sentença de Paulinho da Viola, em sua bela canção – o que dá pra rir dá pra chorar. Ou seja, a confirmação de que a tragédia, qualquer seja ela, embute sempre certa dose, ora maior ora menor, de comédia. Pois foi o que se viu, quando brasileiros estiveram no campo de batalha. Talvez os ouvidos não tenham resistido ao ribombar dos projéteis, determinando o regresso dos aspirantes ao heroísmo vão. Haveremos todos de destacar a diferença entre as guerras infantis feitas com estilingue (baladeiras, para nós do Norte) e pedregulhos, se as compararmos com uma guerra de adultos. Nossos soberbos combatentes voltaram, o choro mal contido traduzido em lágrimas e palavras de arrependimento. Haja calças para lavar!
Vivo fosse, talvez Nélson Rodrigue seria levado a – ele também – reformular o que disse sobre a doença que acomete certos brasileiros. Um dos mais inteligentes direitistas que o Brasil já produziu, o cronista pernambucano diria ter errado, chamar de manifestação doentia, um complexo, a conduta dos vira-latas compatrícios. Estaria convencido de que não é o fato de andar sobre as duas antigas patas traseiras que faz do animal um ser humano. Outros, por certo, destacarão vários aspectos relacionados à conduta dos pretensos heróis, nada mais que vergonhosos fujões. Não envergonhados, claro, porque a vergonha não lhes assiste. Até de supostos espiões têm sido, são e ainda serão acoimados. O que significa dizer de sua absoluta inutilidade, eis que mesmo na prática do mal a que se dedicam e há muito experimentam, saem-se insatisfatoriamente. Por isso, até os mercenários se recusam agora a receber os que seguem a mesma cartilha e o mesmo código de conduta. Se antes era fácil reconhecer haver males que vêm para o bem, russos e ucranianos sabem dizê-lo melhor agora.



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