Harmonia


Nunca nos devemos impressionar pelas aparências ou pelas palavras proferidas. Palavras nem sempre expressam o que passa pela cabeça de quem as profere. Penso que muitos ainda se lembram da bizarra reação do general Augusto Heleno, a respeito das drogas encontradas em avião integrante de comitiva presidencial. Não incomodou o Chefe do Gabinete Institucional o crime praticado pelo “avião” que ia a bordo. O descuido do sargento da Aeronáutica foi o que mais o desagradou. Tudo ficou por isso mesmo, e a pandemia ainda não havia chegado aqui. Não havia, portanto, a desculpa rota, pueril, esfarrapada que se tem usado, para explicar não a pandemia, mas o pandemônio em que se transformou o Brasil.

Recente declaração de autoridade, a segunda desta infelicitada república, permite atestar certo grau de harmonia envolvendo os escalões e gabinetes do Planalto. Se no episódio do tráfico de drogas ao elo mais fraco da corrente coube assumir a culpa e levar o portador à prisão, agora a situação, nos aspectos – digamos assim – substanciais, pode à outra assemelhar-se.

Desta vez, coube ao vice-Presidente da República revelar seu incômodo diante da saída do ex-Ministro Sérgio Moro. Antes, Sua Excelência manifestara desagrado, chegando a tecer prudente e tímida crítica ao Presidente Jair Bolsonaro. As palavras do general Hamilton Mourão disseram-no insatisfeito com o que ele considerou inadequado, na decisão do titular do Gabinete que um dia - ele mesmo sabe disso – ele ocupará.

O que importa destacar na declaração mais recente do vice-Presidente é o conteúdo da crítica. O tiroteio iniciado pelo ex-Ministro foi o alvo da reação do general, não as razões por que o condutor da Lava Jato saiu atirando e disse o que disse. Se Moro saísse na moita, exonerado “a pedido”, como o delegado Valeixo, talvez não perdesse a sonhada vaga no STF. Bastava repetir o que fizera tantas outras vezes: omitir-se no cumprimento de deveres legais. Talvez a expectativa do general Mourão se frustrou. Moro saiu, e nele despertou aquele “oásis de honra” repetido por meu saudoso professor de Direito Penal. Vomitou alguma coisa do muito que sabe e que a população está doida pra saber. O Supremo Tribunal Federal também é curioso. Só não se sabe até que ponto. A harmonia, para trazer algum benefício, é exigente de bom maestro.

Aí está o nó górdio.

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