Golpe e golpes

Dentre as muitas inovações introduzidas na sociedade na primeira década deste milênio, destacam-se ações e práticas políticas. Num dos temas, o golpe de Estado, observa-se a ilimitada criatividade dos interessados. Em geral, beneficiários da tolerância do sistema democrático e arraigadamente apegados ao poder. Por isso, e porque parece também sem limites o rol de promessa e compromissos responsáveis pela posição alcançada, no topo do poder. Uma vez instalados na cadeira principal, muitos dos líderes protegidos pelo sistema democrático em suas nem sempre compreensíveis gradações e peculiaridades, revelam as intenções autoritárias ocultadas. Ou ostentadas e nem por isso suficientemente enfrentadas. Alguns jamais se interessaram em esconder os sentimentos e apetites inspiradores, muito menos atenua-los. Ao contrário, e por não serem confrontados, sentem-se estimulados a prosseguir no seu intento, buscando acrescentar-lhes ingredientes ditados por perversidade e ódio ainda maiores que os originais. Causa alguma estranheza – não mais que isso – o fato de prosseguirem acompanhados de multidões fanatizadas, tornando inexpressivo o percentual dos que abandonam o barco por saberem-no insensato. Uma espécie de Titanic político, prestes a soçobrar mas recalcitrante a ponto de desafiar até crise sanitária altamente mortal. No bojo desse processo tido por impossível ou no mínimo, improvável, renovam-se os apetites, reforça-se o apoio à aventura antidemocrática. Criam-se instrumentos agressivos à democracia, pela qual, parte do povo parece indiferente. Enfim, o ambiente propício ao combate desabusado à democracia, desprezado o preço pago para alcança-la. Preço que soma vidas perdidas em eventuais combates de rua ou em confronto aberto, e esperanças destruídas, a cada dia mais escassas. Esse o caldo de cultura no qual se instala e do qual emerge o projeto de criar um Estado policial, sem os riscos envolvidos nos golpes tradicionais. Ao contrário, o conluio não a harmonia e a autonomia entre poderes, traveste o monstrengo politico, dando-lhe aparência admissível sob o rótulo democrático. Por mais que a gradativa perda de representatividade do parlamento e a emergência de movimentos e mobilizações antidemocrática venham sendo copiosamente estudadas, sabe-se pouco ainda das novas modalidades de golpe de Estado. Nesse particular, o Brasil pós-2013 é campo aberto à curiosidade dos estudiosos. Desafortunadamente, não se restringe a nós esse terreno terrivelmente incauto. Texto encontrado na revista Piauí, de autoria dos professores Renato Sérgio de Lima (FGV/EASP; Diretor-Presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e Luís Flávio Sapori (PUC-MG; membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública)contém oportuna contribuição para o conhecimento do tema.

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