Extermínio

É sempre gratificante ler textos assinados pelo cientista Marcus Lacerda. Presença habitual nas páginas de A Crítica, o respeitado infectologista é das provas mais contundentes de que a arte de escrever não é apanágio reservado aos profissionais das áreas científicas ditas sociais. Diz-se de Sigsmund Freud que ele desejava mesmo, no mais profundo do seu ser, laurear-se com o Prêmio Nobel - de Literatura. Sei que Marcus não aspira ser comparado com o pai da Psicanálise, tanto quanto suponho que ver a Ciência vencer a ignorância e a covid-19 passar às páginas da História é, pelo menos por enquanto, o que de mais gratificante o pesquisador-articulista almeja. Ainda neste fim de semana, seu texto Tributo a Buñuel (A Crítica, C6, Cidades, Quarentena no rio Negro) traz interessante (como sempre!) comentário sobre o extermínio que temos enfrentado - pobres, negros, indígenas, mulheres, quilombolas, professores, trabalhadores -, infectados ou não pelo chamado novo coronavírus. No cineasta espanhol e em um dos seus mais importantes filmes (O Anjo Exterminador), o autor vai buscar o sentido da realidade enfrentada pela sociedade, neste caso em nível global. Destaca, porém, os efeitos da covid-19 de forma diferente, nação a nação. Não que o vírus causador do mal ostente a bandeira do país em que chega, ou cante sinceramente ou falsamente o orgulho nacional em sua correspondente música e letra. A mão direita cobrindo-lhe o peito, à altura do coração. Nada disso! O que chama a atenção no texto de Marcus é um aspecto que me parece pouco explorado, em derredor da tragédia espalhada pelo Mundo. Há lugares em que a Ciência mostrou-se apta a responder à crise, da qual a criação e produção de vacinas em tempo recorde é o melhor atestado. Neles, pesou a conduta dos governantes, aqui e alhures, desejem ou não, tomados como exemplares. Para o bem e para o mal. Ou seja, de quem se deve observar a conduta e seguir o exemplo. Se mau ou bom, a cada um cabe escolher. Também por isso responder. Surreais que extrapolam os limites que até Salvador Dali não ousaria desafiar, muitos os brasileiros chamados à festança descrita por Buñuel, que o infectologista e pesquisador toma por mote para escrever seu oportuno e esclarecedor comentário. Quando Ciência e Arte se encontram, felizes os que as sabem valorizar e apreciar. Obrigado, Marcus!

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