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Era dos bufões

Eric Hobsbawm captou com propriedade fatos e relações de períodos da História Universal, oferecendo a seus contemporâneos e aos pósteros a oportunidade de evitar a farsa. Se é verdade que a repetição da História sempre será farsesca, ninguém melhor que o historiador britânico o terá afirmado. Suas obras, cada dia mais relevantes para a compreensão das sociedades e sua trajetória, explicam com clareza os processos sociais dos quais resultou o Mundo/mundo tal como o conhecemos. Desejemo-lo ou não, vivemos em uma sociedade substancialmente diferente daquela em que viveram nossos avôs. Nem poderia ser diferente, tantos os avanços tecnológicos, tão marcante a alteração nos valores. De minha parte, tenho dito que após a Revolução Industrial não se tem testemunhado mais que o desenvolvimento do capitalismo. E aqui já está um dos traços definidores dos tempos atuais, que a queda do muro de Berlim e tudo o que isso quer dizer simbolizam. Ainda agora, e mais uma vez, a Europa mostra a riqueza de seu repertório político e social, que não se esgotou em Marx, Engels, Einstein e Freud. Nem mesmo com Hobsbawm. Na Turquia, com Erdogan; no Reino Unido, com Boris Johnson; na Ucrânia, com Volodmyr Zelensk, chegam ao pódio político figuras quase desprezíveis do ponto de vista de valores humanos, todavia consagrados pelo voto de seus concidadãos. A atuação de todos eles, à frente do governo de seus respectivos países, se não desmente e, mais grave, destaca as formas como opera o capitalismo, onde quer que seja, também mostra a necessidade de colocar em questão outros ingredientes. A acumulação de capital, traço comum do sistema imposto ao Mundo/mundo, tem sido acompanhada de condutas e decisões talvez pouco perceptíveis no passado. Pelo que vem ocorrendo no Reino Unido, nos outros países mencionados e em alguns outros, componentes pessoais dão o ar de sua graça. De Bóris Johnson, o ex-comediante britânico, sabe-se dotado de enorme narcisismo. Não é diferente em outros lugares, onde a direita tirou do anonimato figuras absolutamente inaptas ao convívio democrático. O Brasil não foge à regra, embora nenhum traço histriônico possa ser atribuído à execrável figura que ocupa a Presidência da República. Não porque ao militar excluído das fileiras faltem outros requisitos, de que o apego ao poder e o ódio aos pobres (se não a toda a humanidade) são exemplificativos. Interiormente vazios, vivendo como o índio Sexta-feira, da Ilha do Tesouro, esses simulacros de gente distribuem o ódio a tudo o que os cerca, não importam os resultados de sua maléfica atuação. Bufões é o que são todos eles. A História - e a renúncia de Johnson o diz - começa a cobrar deles.

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