E la nave...va

Aproximo-me dos oitenta e não cessa o permanente e intenso aprendizado a que me entrego, minuto após minuto, segundo após segundo, exercício como tudo o que é humano, contraditório. As lições aprendidas, se me têm feito um ser humano em ininterrupto processo de humanização, também me põem frente a cenários, pessoas e situações embaraçosas. Acompanhei pela televisão o pequeno passo de um homem, mas um grande passo para a Humanidade. A Lua pisada por pés terráqueos. Quando em território brasileiro e nos porões mantidos com dinheiro do contribuinte e maliciosamente sofisticados pelo dinheiro de empresas, divergentes eram torturados e mortos. Soube e vi, distante – quanto desejei vê-lo de perto! – o drama da paixão de Cristo, encenado em Nova Jerusalém. No mesmo Estado de onde saiu um operário, mais tarde eleito Presidente da República. O mesmo cargo que, depois de ocupado, também pela primeira vez, por uma mulher, assenta um ex-Militar excluído do convívio castrense. Sem a exclusão, talvez a população da cidade do Rio de Janeiro já tivesse passado pelo sofrimento que matou sem oxigênio parte dos habitantes de Manaus. Ainda não se completou a oitava década, e contabilizo no livro da minha vida a morte estimulada, aplaudida, facilitada – e estrepitosamente festejada. Criado em família católica apostólica romana, vi o nome do Deus que justificava o oratório de minha avó, usado para transformar o templo em casa de leilões. Com agressividade e ousadia maiores que as testemunhadas por Lutero. Soube dos regabofes e rapapés com que a morte alheia é comemorada, não importa a quantidade de sepulturas a que corresponde tamanho gáudio. Pilatos parece ressuscitado. Não cessa o surgimento de oradores inspirados pelo ódio, travestidos de defensores da liberdade. Inclusive e sobretudo a de morrerem os outros. A quota individual do espólio será maior para os sobreviventes. E la nave va...eu com ela.

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