E agora?

A caminhada democrática no Brasil apresenta aspectos no mínimo curiosos. Rompida nossa primavera coberta pela Constituição de 1946, retrocedemos à caverna. Para sair dela, até admitimos concessões que nenhum outro povo admitiu, em circunstâncias semelhantes. A comparação com a Argentina e o Chile são os exemplos mais à mão. Nossas peculiaridades acabaram por engendrar situação que corrompe (ops!) a imagem duramente construída no cenário internacional. Dos anos dourados (qualquer seja o significado da expressão) resta apenas a lembrança, gerando certa nostalgia em em todos os casos aconselhável. O ontem foi o ontem, cabendo a cada um de nós e a nós todos produzir o amanhã. Liderados por um governante confessadamente incompetente, multidões foram às ruas, para pedir a volta à caverna. Da tortura, da violência e da mentira nutriu-se o que o professor norte-americano Yascha Mounk chamou O povo contra a democracia (Companhia das Letras, 2019). Beneficiário do sopro democrático que não soubemos transformar em tornado, foi posto no poder um representante das forças que à democracia cumpre combater. A corrupção e um anti-comunismo inexistente no mundo pós-guerra fria, voltaram a pretextar sucessivas e crescentes agressões às instituições democráticas. Tais instituições, como o Poder Judiciário e o Poder Legislativo, estranhamente parecem engajados na mesma e deletéria tarefa do Poder Executivo. Com a Constituição de 1946, mais tarde com a de 1988, ainda havia a quem recorrer. E agora?

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