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DIA DA FILÓSOFA E DO FILÓSOFO: O DESAFIO DE CULTIVAR O AMOR À SABEDORIA DIANTE DO ÓDIO AO PENSAMENTO

José Alcimar de Oliveira*

É preciso destruir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia é algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos profissionais e sistemáticos. É preciso, portanto, demonstrar preliminarmente que todos os homens são filósofos (Antonio Gramsci)


01. Nesse 16 de agosto de 2023 comemoramos o Dia da Filósofa e do Filósofo. Poderia ser também a data para se comemorar a arte do pensar e, a seguir o grande pensador da epígrafe acima, merecem inclusão, nesse dia, com igual estatuto de Filósofas e Filósofos, todas e todos que cultivam a sabedoria, da jardineira, jardineiro, à pós-doutora e pós-doutor, do pajé indígena, do pai ou mãe de santo, trovadora, trovador popular, cordelista, benzedora, benzedor, até quem foi convidado a proferir sua Aula Magna no renomado Collége de France, como Foucault e Barthes. E por que não Patativa do Assaré ou o nosso Zé da Zilda (do Filósofo e meu amigo Marcos José) e seu parceiro Biu Buduia, ambos de Manaus e igualmente no contracurso da figura servil e lúmpen do Zé Ninguém, do atualíssimo Wilhelm Reich? E as mulheres? Que belo quarteto filosófico, para pensar em quatro referências militantes nesse Brasil que parece naturalizar o ódio ao pensamento, não seria formado por Carolina Maria de Jesus, Sônia Guajajara, Elizabeth Teixeira e Marilena Chauí (as três últimas vivas)?

02. A filosofia é a democracia do pensamento. É o jardim livre do cultivo das ideias, como propunha Epicuro. A exigência básica da filósofa e do filósofo é o cuidado da sabedoria, seja por meio de conceitos acadêmicos, seja pelo manejo sábio das palavras de quem, mesmo impedido de entrar nos templos acadêmicos, impedido do acesso à cultura letrada, exercita a arte de falar enraizado na sabedoria construída no chão da vida e na casca do alho. São as Filósofas e os Filósofos Narradoras e Narradores da Tradição Oral. Em regra, as Academias são mais habitadas por funcionários da ciência do que por intelectuais e, dentre estes, poucos sábios, e menos ainda intelectuais das classes subalternas. O que há, em excesso, são intelectuais subalternos das classes orgânicas. Quanto a isso, é sempre saudável uma visita ao velho Gramsci. Milton Santos, a propósito dessa contradição (explicável) já denunciava que no Brasil aumenta o número de letrados e diminui o número de intelectuais.

03. Não cabe o reconhecimento de Filósofa ou de Filósofo a quem impede ou trava a democratização do pensamento. A quem impede a classe trabalhadora do acesso às letras, a quem conjura o iluminismo. É bom ler com atenção as sábias palavras do incontornável Immanuel Kant (1724-1804), reproduzidas ipsis litteris: “Uma época não pode se aliar e conjurar para colocar a seguinte em um estado em que se torne impossível para esta ampliar seus conhecimentos (particularmente os mais imediatos), purificar-se dos erros e avançar mais no caminho do esclarecimento [Aufklärung]. Isto seria um crime contra a natureza humana (grifo nosso), cuja determinação original consiste precisamente neste avanço”. Não seria exagero nenhum que esta declaração kantiana se espalhasse nos muros dos becos, das ruas e nas praças, não na forma de outdoors do consumismo, mas de panfletos e intervenções artísticas e emancipatórias.

04. Sem filosofia não há democracia. Não democracia burguesa, que é, por si, um contrassenso. É melhor e mais estratégico falar de democratização, que implica a democracia como poder do povo, do povo livre e sem medo. Do povo-multidão, de todas as cores e credos, com liberdade de pensar. Para recorrer ao genial Espinosa no Tratado político: “Porque a multidão livre conduz-se mais pela esperança que pelo medo, ao passo que uma multidão subjugada conduz-se mais pelo medo que pela esperança: aquela procura cultivar a vida, esta procura somente evitar a morte”. Não há democracia sem política de afirmação substantiva da vida. Não é de estranhar que Jesus de Nazaré, incluído como Filósofo no livro Meus filósofos, de Edgar Morin – hoje com 102 anos e a quem dedico essas linhas no Dia da Filósofa e do Filósofo – , tenha dito: “vim para que todos tenham vida” (Jo 10,10).

05. Se filosofia é a democracia do pensamento, outra coisa ela não pode ser senão saber do povo livre e sem medo. Santo Agostinho, esse monumento do saber teológico e filosófico da Antiguidade Cristã, afirma que a sabedoria é que é, portanto, a medida da alma (modus ergo animi sapientia est). Essa medida, esse modo de ser, não se confunde com o saber acadêmico. É saber da vida, saber viver. Conviver. Não excluir. Não discriminar. Compreender. A filosofia não pode vicejar fora do cultivo do canteiro democrático, do jardim de mil plantas e flores. Habermas, hoje aos 94 anos, nos apresenta esta bela equação filosófica: “A filosofia e a democracia não só partilham as mesmas origens históricas como também, de certo modo, dependem uma da outra”. No primeiro período do Curso de Filosofia aprendi que a filosofia é filha da cidade, da pólis. Mas é na cidade também, sobretudo quando nas mãos de malfeitores, que mais se conspira contra a Filosofia. Isso não se iniciou hoje. Voltem a Sócrates e sua condenação à morte na “democrata” Cidade-Estado de Atenas. Por isso, em tempos de tanta malfeitoria e estupidez, é oportuna a observação de Nietzsche de que é também tarefa da Filosofia subtrair à estupidez sua confortável boa consciência.

06. Hoje, no prevalente regime da semiformação (ou semicultura), segundo o fecundo conceito do velho Adorno, e bem mais fecundo atualmente que ao tempo do autor da Dialética negativa, virou regra acusar de esquerdopata, esquerdista, comunista, delinquente, quem se recusa a rezar pelo catecismo da mediocridade cognitiva, com sua arrogante ausência de pensamento, a infestar as redes sociais. A propósito, minha rede de dormir, de ler e de pensar, já foi desinfestada. Além do mais, disponho de excelentes filtros cognitivos, em vários modelos, de Heráclito a Paulo Arantes, de Epicuro a Dom Pedro Casaldáliga, de Agostinho a Carolina Maria de Jesus, de Abelardo a Marx, de Paulo Apóstolo a Alain Badiou, de Epicuro a Elizabeth Teixeira, de Platão a Espinosa, de Jesus de Nazaré a Lênin, de Aristóteles a Kant, de Parmênides a Hegel, do Filósofo Operário Joseph Dietzgen a Marilena Chauí, de Marx-Engels a Jacob Gorender. E são muitos os fecundos afluentes do caudaloso e libertário rio da Filosofia onde é possível ao espírito encontrar poços de purificação.

07. Para ficar apenas em sete parágrafos, concluo chamando à agora das ideias mais dois mestres do pensamento filosófico: Epicuro e Karl Jaspers. O primeiro, Epicuro, foi tema do TCC doutoral de Karl Marx em Filosofia. O segundo, Karl Jaspers – e preventivamente adianto que ele está isento do “periculoso pensamento de esquerda”, bem como da “terrível ameaça do marxismo cultural”, é autor de um conhecido (ao menos nos meios filosóficos) pequeno e denso livro, Introdução ao pensamento filosófico, apresentado inicialmente na forma de 13 comunicações televisivas há quase 60 anos na Baviera, Alemanha.

7.1. De Epicuro para o mundo: “Nunca se protele o filosofar quando se é jovem, nem canse o fazê-lo quando se é velho, pois que ninguém é jamais pouco maduro nem demasiado maduro para conquistar a saúde da alma. E quem diz que a hora de filosofar ainda não chegou ou já passou, assemelha-se ao que diz que ainda não chegou ou já passou a hora de ser feliz”. É o mais belo elogio à filosofia já escrito.

7.2. De Karl Jaspers para o mundo: “Muitos políticos veem facilitado o seu nefasto trabalho pela ausência de filosofia. Massas e funcionários são mais fáceis de manipular quando não pensam, mas tão-somente usam uma inteligência de rebanho”. Jaspers, orientador da tese doutoral de uma desconhecida aluna chamada Hannah Arendt, nunca esteve no Brasil e publicou esse texto em 1965.

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo sem cátedra, base da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru, AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana, CE). Escrito em Manaus, AM, no dia da Filósofa e do Filósofo, 16 de agosto de 2023.

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