Dentro e fora

Uma das atitudes típicas de nossos políticos é a forma como observam os fenômenos, estejam dentro ou estejam fora do fechado círculo dos governantes. Quando ocupam postos-chaves na administração, apegam-se a qualquer pretexto para justificar seu próprio fracasso. Ora atribuem-nos à indelicadeza dos opositores, ora às oscilações do mercado, agora globalmente considerado. O fato é que, distantes daquelas posições, têm resposta para tudo. O que não puderam (ou não quiseram, ou não souberam)fazer torna-se absolutamente viável. Memória curta, interesses longos, eles passam a criticar os que os sucederam, como se todos devessem lhes dar ouvidos e crer nas suas (quase eu dizia fake-news) falácias. Pensava, até recentemente, que esse era fenômeno devido apenas aos interesses políticos em jogo. Enganei-me, e disso dou conta agora. Também há, à moda dos políticos, especialistas em seja lá o que for, dispostos a identificar problemas de que se julgam descobridores e propor soluções autoatribuíveis a sabedoria que está por ser provada. Como o gato que não consegue esconder a própria cauda, esses especialistas abeberam-se no conhecimento produzido por terceiros, de que sua mente é receptora acrítica e que, afinal, poderá fazê-los beneficiários. Nesse grupo incluem-se profissionais sempre dispostos a acusar as instituições de ensino superior, em geral e prioritariamente as públicas, de ignorarem os interesses do sistema produtivo. Nem se dão conta do quanto esses aspectos têm sido discutidos na academia, e com que rigor. Sobretudo, porque preferem ignorar as repercussões da submissão aos interesses menores que implica a transformação de universidades, centros e institutos de pesquisa, ciência e tecnologia, em mero apêndice do aparelho produtivo. É como se aplaudissem a prevalência do malfadado pragmatismo que sua conduta embute, diante da Ciência e do Conhecimento. Aos que passaram pelos quadros universitários, não só na condição de alunos, mas de professores e pesquisadores também, ainda se pode oferecer alguma tolerância. Por mais que discordemos deles, certamente reconheceremos terem alguma razão, menos defensável ela seja. Aos que, porém, têm nula tal experiência, nada melhor que terem o tratamento dispensado aos ignorantes.

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