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De volta ao leito original

Era usual dizer-se de alguém que se metera em camisa de onze varas. O que quer quem isso signifique, a expressão era empregada para pessoas ou organizações levadas a situação vexatória ou complicada, por ação de sua própria iniciativa. Esse parece o caso do Partido dos Trabalhadores e, pior ainda, de sua mais forte - e talvez única - liderança. Ninguém menos que o triPresidente Luís Inácio Lula da Silva. Embora ostentando com justiça imagem de um estadista, talvez o único também destes tempos tão pobres no País, essa condição não tem poupado Lula dos muitos constrangimentos a que tem sido exposto. Curioso observar é que o período durante o qual estava maldosamente encarcerado, o líder do PT não dispunha da liberdade consistente no direito de ir-e-vir, mas parecia mais livre do que agora, com todas as vantagens, pompas e benefícios que o Palácio do Planalto garante aos seus ocupantes. O que pode significar que o poder traz consigo, além da presunção de divindade que alguns ostentam, dissabores nem sempre fáceis de remover. Não é mais uma apertada sala, não sei por que motivo chamada de estado-maior, que impede Lula de dar os passos por ele desejados. Nem são servidores públicos armados as pessoas mais próximas dele, como durante sua permanência na prisão. Cercam-no hoje os áulicos de sempre, os palacianos de todos os tempos, os lambe-sacos de praxe, os oportunistas de toda estirpe. Alguns pressurosos por mala que possam carregar, por que para isso vieram ao Mundo/mundo. Dentre todos, destacam-se os que, tal como os carrapatos, disputam um espaço na fotografia e uns trocados que lhes possam cair na algibeira. Ou nem tão trocados assim, que lhes engordem as contas bancárias. É disso, porém, que se nutrem as civilizações, ainda mais quando nelas se instaura o regresso ameaçador de barbérie iminente. Se ao homem a Política serve de espaço onde melhor e mais legitimamente se exercem suas melhores faculdades, é também nele que se revelam as virtudes e os vícios próprios da condição humana. A opção por cultivar ou eliminar, reduzir ou estancar alguns deles - vícios e virtudes - nem sempre encontra a vontade necessária a levar a bom termo o intento preferido. Daí que Lula enfrenta, as 24 horas de cada dia, as dificuldades de uma nação que ainda está por encontrar-se consigo mesma. As esperanças suscitadas nos dois primeiros mandatos de Lula, no inicial sobretudo, parecem dissolvidas no mandato em que o ex-líder metalúrgico consolidaria posição ímpar na História. De operário à Presidência, de um país antes levado na zombaria a um Estado influente no cenário internacional. Ninguém pode dizer ser dele, exclusivamente, a culpa pelas preocupações e disssabores que ele hoje experimenta. Os tempos, porém, são outros. O sistema econômico produtor do maior nível de riqueza e miséria, de abastança e fome, sente-se ameaçado. Basta isso, para impor a todos os cidadãos conduta adequada à redução drástica das desigualdades reinantes. Não é por aí, a estrada que outros pavimentaram, em grande medida pela timidez com que os dois mandatos anteriores de Lula e os dois de sua sucessora atuaram. O PT, posto no poder, perdeu ao longo das duas últimas décadas o brilho estelar com que surgiu no horizonte político brasileiro. Por isso, enfrenta internamente guerra que pode ser fratricida, aquele que o humor brasileiro diz levar a vaca a desconhecer o bezerro. Nao é isso que fará bem - ao País, ao povo e à democracia. Melhor que seja reencontrado o leito por onde passaram as águas petistas, até a primeira debandada dos sonhadores que fizeram aquele partido vir ao Mundo/mundo.

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