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Da utilidade e da oportunidade do voto

Venho de um tempo em que as elites punham um rótulo em todos os que ousavam divergir de seus maus propósitos; éramos os inocentes úteis. Com isso elas tentavam anular a visão de mundo ostentada pelos jovens e os sentimentos e sonhos que traziam consigo. Embora tivessem certo recato (ou era vergonha, mesmo?)em dizerem-se conservadoras, não se inibiam em criar novos privilégios para si mesmos, com o aprofundamento das desigualdades que tanto as beneficiava. Até chegarem ao ponto em que chegaram e a que trouxeram o País. Contentam-se com a posição vexatória, na primeira fila das nações mais desiguais do Mundo. Nem se apercebem de que à pecha atribuída aos divergentes e incomodados corresponde, com justiça e exatidão, a tarja que trazem ostensiva em suas próprias testas: maliciosos inúteis. Quando se veem flagrados em sua costumeira pilhagem e sentem a ameaça de uma frustração eleitoral, logo se saem com mil pretextos, na tentativa de anular a resistência que se esboça irresistível. Quando esgotado o farnel de mentiras disseminadas de modo criminoso e covarde, tentam desqualificar o processo eleitoral, embora dele mesmo se tendo valido. Desmentem o que disseram antes, e passam a advogar a reeleição, como se todos optassem pela desmemória oportunista que os alimenta. Depois, mais uma vez desmemoriados e tocados pelo desespero, buscam desmentir a relação da vontade humana com o processo de votação. Como se a fome, o desemprego, as patranhas, o enriquecimento ilícito de que desfrutam, as agressões aos direitos individuais e coletivos, tudo isso fosse inventado pelos inimigos (porque gente dessa laia não tem adversários). Mesmo quando aplaudem a morte de quase 700 mil dos mortos pela covid-19, é como se nada tivessem essas mortes com a ação ou a omissão dos que teimam em aplaudir e cultuar. Não seria possível esperar desses maledicentes inúteis algo diferente. Dos outros, porém, dos que não se deixam iludir com facilidade, pode-se esperar justo entendimento do que significa a utilidade do voto. E a que se destina a manifestação da vontade humana, no nem sempre árido terreno da Política. Uma forma de regar e tornar fértil a seara é entender quais os frutos que resultarão do exercício do tal livre arbítrio, esse dom com o qual nascemos e pelo qual respondemos. O voto útil, desta vez, diz se a sociedade prefere a ditadura ou a democracia; o alimento ou a forme; o trabalho ou a esmola; a dignidade ou a humilhação. Se Ciro Gomes e Simone Tebet são realmente democratas, impossível alinharem-se aos interesses da fera acuada. Não é mais que isso a tergiversação responsável pela permanência de ambos na disputa. O voto em Lula, agora, é tão útil quanto oportuno. Mesmo se, em 2 de janeiro, os que o terão reconduzido ao Planalto sejam os primeiros a pôr-se alertas na cobrança de que repita o período de seu primeiro mandato presidencial. O currículo do ex-metalúrgico, diga o que se disser dele, mostra perspectivas menos trágicas que a de seu opositor.

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