Da retórica (vazia) da “melhor idade” à realidade

Marcelo Seráfico


O aumento da expectativa de vida dos indivíduos produziu consigo dois fenômenos paralelos e opostos. De um lado, avançou a retórica da “melhor idade” e com ela uma série de iniciativas com vistas a tornar a vida dos velhos das sociedades capitalistas menos angustiante. De centros de atendimento a idosos a descontos em lojas e espetáculos, governos e empresas passaram a olhar para os velhos como cidadãos dignos de reconhecimento e como consumidores passíveis de serem seduzidos pelos encantos da mercadoria. De outro lado, a crise da economia capitalista fez com que os mesmos governos e as mesmas empresas cobrassem dos velhos um preço alto para que suas receitas e lucros fossem preservados . Expulsos do mercado de trabalho, vilipendiados pela cassação de direitos previdenciários, negligenciados pelas políticas de saúde pública, abandonados em cidades incapazes de oferecer, sequer, calçadas adequadas para seu deslocamento, os velhos se tornaram um estorvo para tecnocratas, empresários, governantes, economistas e consultores de toda sorte.

Essa condição se reduz, evidentemente, quando o velho se revela apto à sobrevivência no mercado, o ambiente privilegiado para a seleção social nesse mundo de eufemismos e cinismos.

Ocorre que, velhos, perdemos a avidez por quase tudo que não nos seja essencial. O consumo deixa de ser motivo para acordar, pôr o pé na rua - ou o dedo no teclado -, a mão no bolso e fazer com que um pentagrama pontuado de cifras siga melodicamente da nossa para a conta das empresas.

Esvai-se, aos poucos, a retórica vazia da “melhor idade”. Afinal, o mercado - e seus “humores” - não desenvolveu o dom de rejuvenescer.

Por enquanto, o grande mercado que aceita os velhos é o dos produtos farmacêuticos. Outro, o das cirurgias plásticas e dietas milagrosas, permanece exclusividade dos abastados e vaidosos.

Isso não é estranho numa sociedade em que tudo precisa ser novo, em que se cultua a inovação, a obsolescência, a validade breve, o consumo imediato, a rapidez, a fugacidade dos eventos.

O desprezo pela velhice é a face particular do desprezo pela história. O indivíduo velho e a vida coletiva não fazem o menor sentido na sociedade capitalista contemporânea. Daí a busca ensandecida - e muitas vezes lucrativa - pelo sentido. Literatura de auto-ajuda, religião, "qualidade de vida", dinheiro, experiência, emoções fortes, esportes radicais, drogas... o sentido parece fugir quando tudo se subordina a uma lógica estranha.

Essa era uma das facetas de um grave problema identificado por dois grandes intelectuais nascidos no século XIX. Marx chamava de alienação e Weber de racionalização da cultura a esse estranhamento e encerramento dos indivíduos em teias de relações que os subordinavam. Marx apostava na possibilidade de que a consciência dessa condição nos levasse a transformá-la. Weber, resignado, nos via todos numa jaula de ferro.

Um desafio fundamental de nosso tempo é discernirmos o cinismo que alimenta expressões aparentemente ingênuas ou positivas que, de fato, escondem a violência desse que para muitos é um deus, o ubíquo mercado.

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