DA CABANAGEM À COMUNA: MANAUS SE ENCONTRA COM SUAS ORIGENS


José Alcimar de Oliveira*


Quando os justos se multiplicam, o povo se alegra; o povo geme, quando o ímpio governa (Pr 29,2).


01. Só é possível o encontro livre e criativo entre o direito e a justiça quando o povo se apodera, de forma igualmente livre e criativa, dos becos, ruas e praças. Se não há salvação fora da política, também não há política digna deste nobre conceito (que remete à Pólis, cidade) sem o espaço da ágora (praça). Somente quando o povo ocupa becos, ruas e praças é possível desfazer as trapaças. Política trapaceira se combate na rua. É na rua que a teoria adquire potência material.

02. Ontem, 29 de maio de 2021, em Manaus, no Brasil e no Mundo, o exercício da grande política voltou a ocupar o espaço público e reafirmou que o poder da verdade pertence ao povo, jamais ao medo e ao ódio emanados da cúpula. A verdade liberta. Mais do que isso. É o conhecimento da verdade que liberta. Sem o devir orientado pela busca do conhecimento da verdade não há vida verdadeira. A vida falsa se alimenta do cancelamento (palavra de ordem da moda) da verdade.

03. Na tarde de ontem, com chuva, céu nublado e luz da luta, num triângulo pontificado por três templos (para fazer referência a uma célebre figura da política local): a igreja (de São Sebastião), a praça (ou agora largo) de mesmo nome e o Teatro Amazonas, numa síntese política entre fé, povo e arte, a democracia (o poder do povo) se fez vida e defesa da vida. Para recorrer a um célebre pensador da antiguidade cristã, Leão Magno, não pode haver tristeza quando nasce a vida.

04. Neste ano de 2021, num Brasil marcado pelo morticínio e sono da razão, a classe trabalhadora (a única que produz riqueza) comemora os 150 anos da Comuna de Paris. Mas é preciso dizer que 35 anos antes do Governo Comunal de Paris, chegavam a Manaus, em 1836, subindo o rio Amazonas (portanto há 185 anos) os Lutadores Cabanos. O espírito da Cabanagem permanece como brasas sob cinzas. A Cabanagem é a ponte política entre o fogo dialético aceso por Heráclito na Hélade antiga e a Manaus de 2021.

05. Depois da Cabanagem Manaus já foi denominada a Paris dos Trópicos, para deleite da elite extrativista. Hoje, sob arrivismo e heteronomia política, se vê no espelho esmaecido das elites predatórias como um tipo morno de Miami Tropical. Nem Paris, nem Miami. Manaus é da Amazônia, indígena, caboca e negra. Manaus é da luta. Manaus é Cabana. No Complexo da Amazônia escreve Djalma Batista: a alma de Manaus é índia. Se Manaus continua poliglota em 2021 é por força de sua população indígena urbana.

06. A Manaus Coletiva deste filho de Bela Vista, em Manacapuru – AM, é também filha do cruzamento de muitos rios, do Solimões, do Negro, do Amazonas, do São Francisco e, por que não, do Jaguaribe, do Ceará dos meus pais que, forçados mais pelas cercas do que secas, migraram de Jaguaruana – CE para a Colônia de Bela Vista, em Manacapuru – AM, em 1955. Se Manaus deseja olhar para Paris, que vá além dos perfumes e vitrines, e se inspire na resistência da Paris Comunal, de 1871.

07. Manaus mostrou que da composição entre luta massiva e teoria, da força política do povo unido, nasce o antídoto contra o medo e o ódio reverberados pela personalidade de quem cultiva a morte e decresce no pântano do fascismo. A alegria da luta pode ativar a vida e mobilizar afetos afirmadores da solidariedade e do bem viver. A vida falsa, o negacionismo e as forças do atraso sempre podem menos e não resistem ao devir coletivo da verdade e da luta dialética, aqui afirmados como modos de ser do real.

_________________________________________________________________________________

*José Alcimar de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Amazonas, teólogo sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões e Jaguaribe. Em Manaus, AM, aos 30 dias de maio do ano do morticínio de 2021.


0 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

uma cerejeira e uma saudade*

em julho, quando o mês finda há uma data charmosa que já foi linda e segue teimosa há também uma cerejeira que floresce certeira que a saudade desvanece elas chegam sempre no espaço da espera no vazio

VIVA A BARBÁRIE

Bernardo Carvalho, FSP- 14-06-2021 Numa entrevista recente ao jornal Libération, em resposta a uma pergunta sobre o confinamento na pandemia, o lendário diretor de teatro inglês Peter Brook, 95, relem