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Crença no absurdo

Desculpem-me, se não consigo encontrar incompatibilidade entre razão e sentimento. Há fatos, porém, que admitem, precisam e reclamam essa convivência quase absurda. Sem isso, absurdo maior que seja, impossível continuar vivendo. Um homem, proprietário de um pequeno negócio no Guarujá, SP, sem qualquer registro policial, foi linchado até à morte. Se tivesse dez, cem ou mil registros, ainda assim, estaríamos diante de uma barbaridade. Não mais, nem menos! A primeira morte não foi a do homem, que passou três dias hospitalizado. Só então foi decretada sua morte cerebral. A morte anterior vitimou os valores pregados por um homem que liderava um grupo de peregrinos, faz mais de 20 séculos, nas terras da Judeia. E - não sejamos tomados pelo pasmo, porque isso já não cabe - esses mesmos valores têm sido usados para praticar atos semelhantes ao linchamento do motociclista numa praia da gente bem que muitas vezes não é bem gente. Muitos nem se valem de pedaços de madeira, capacetes ou outros instrumentos contundentes, para satisfazer suas taras ou carências éticas, morais ou de humanidade. A prática do charlatanismo, a voluntária negativa de oxigênio a doentes, a campanha contra medidas sanitárias de proteção às pessoas, a contaminação de rios com metais pesados, a expulsão de ocupantes originários de suas terras, o armamento de boa parte da população - todos esses são meios de que se têm valido os bárbaros do séc. XXI. É outro o tipo de linchamento imposto por esse outro tipo de linchadores. Às vezes, com eficiência trágica, de que podem resultar 700 mil mortos, dos quais número expressivo corresponde às vítimas dessa forma sutil mas não diferente das outras. Pelo menos, como crença na violência ainda maior, para combater a violência que incomoda. Ou pelas taras que os fazem sentir-se incomodados com a saúde mental e física do outro. Não, nem a dúvida sobre o destino da sociedade humana me faz avesso à ideia de que sentimento e razão podem conviver em paz. Aprendi isso com Jesus, Che, Carlitos, Dom Quixote. E, desculpem a imodéstia, João Seraphico, meu pai.

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