Combates


A chegada da pandemia no Brasil não apenas aprofundou a polarização, como revelou estranhas visões e concepções de mundo. Servindo a propósitos políticos antes escondidos, a covid-19 também ensejou a observação de fenômenos que muitos jamais imaginariam um dia testemunhar. Não é só o desdém ou a indiferença diante do problema que se integra ao trágico panorama nacional. Se, antes da pandemia, vivíamos uma tragédia politica e social sem precedentes, desde março a componente sanitária foi incorporada ao cenário. E começou a atrair a atenção de todos, independente do seu grau de conhecimento (de ignorância, também), para problemas que, por permanentes, parecem participar do que seria da natureza de nossa sociedade. Refiro-me à corrupção, mal que muitos dizem ter desembarcado junto com os portugueses, faz 520 anos. Salvo a exceção dos que a defendem com cínico orgulho, todos aparentam rejeita-la. Alguns, sempre carregando o cenho cerrado e lançando ódio sobre os que a praticam. (Desde que não sejam eles próprios, é óbvio). Não pouco frequentemente, ousando passar pela porta de uma delegacia de Polícia, como se nada fosse devido por eles às autoridades policiais. De tal sorte, que esforços dos órgãos de repressão ao crime sempre têm menos força de pôr tudo às claras, que a disputa pelo butim. Sem as brigas de quadrilha, muita coisa restaria oculta. No passado, um político paulista notabilizou-se pela expressão rouba, mas faz. Era Ademar de Barros, que depois de governar São Paulo queria chegar ao Catete. Era daquele bairro fluminense que o Presidente governava a República. Dizia-se à época que o Brasil era um país atrasado. Roubar dezenas de milhares da moeda de então podia levar o corrupto ao suicídio. Getúlio não foi um deles. Não era, com certeza, apenas a vergonha de ter roubado a responsável pelo auto-sacrifício, mas a distração que levara à descoberta do crime. Descuido semelhante ao cometido pelo militar que levava 39 quilos de cocaína em avião da gloriosa Força Aérea Brasileira, segundo o general-ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional.

A trama da tragédia brasileira enriquece-se hoje de expedientes de alguma forma inéditos, mesmo que persistam concomitantemente com – digamos assim – práticas tradicionais. O cenário, porém, sugere, estimula e cria modos de fazer dotados de certo grau de originalidade. Que acaba por levar à ladroagem grosseira, fácil de descobrir. Enquanto a Ciência ignora os que a ofendem, o combate à corrupção resgata tratamentos nada ortodoxos. É o caso do uso disseminado da homeopatia, esse método que se vale dos sinais e sintomas da doença, como forma de curar o doente. Essa tem sido a terapêutica mais usada, sempre com os cenhos cerrados e o ódio à corrupção lançado por olhos rútilos e fumegantes. Portanto, mais corrupção é vista por muitos como absolutamente necessária. Disso, e neste caso específico, de nada valem as lições de Samuel Hahnemann. As práticas de Sérgio Moro, Deltan Dalagnol e seus incensadores de ontem e de hoje valem mais.

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