Com Pilha, sem dar pilhas ao autoritarismo

Engana-se quem pensa totalmente removido o entulho autoritário herdado do trágico período 1964-1985. Nele, o Estado brasileiro patrocinou e oficializou o terror, seja por virulenta e violenta ação dos órgãos de repressão, seja pela imposição de ambiente absolutamente avesso às formas democráticas de oposição ao regime. Os opositores desesperados acabaram empurrados para a equivocada guerrilha do Araguaia, de cuja herança trágica ainda se está por conhecer integralmente. Mesmo adversários da ditadura parecem pouco atentos à perpetuação do autoritarismo, de que dá prova a prisão do deputado Daniel Silveira. O Ministro Alexandre Morais, ao fundamentar a decisão buscou arrimo na sobreviva Lei de Segurança Nacional, em péssimo exemplo dado ao demais membros do Poder Judiciário, nas sucessivas instâncias em que se organiza. A LSN, instrumento serviçal das ditaduras, ocorram onde ocorrerem, ganhou revestimento de legitimidade, e não menos que pela mais alta corte de Justiça (?) do País. O deputado, cujos delitos têm quase nada a ver com crime de opinião, tem mil razões para ser mantido à margem da sociedade, de resto a verdadeira vítima de sua ação delinquente. Este não é o caso de Rodrigo Pilha, um militante político que foi às ruas em manifestação popular contra o holocausto provocado pela pandemia, prestigiada e associada à nefasta condução dos negócios públicos nesta infausta fase de nossa História. Dia 18, portando um cartaz de crítica ao Presidente da República, foi levado à prisão. Pior, sob a alegação de igual conduta, quando pedia a derrubada de Michel Temer. Em ambos os casos, sob o guante da Lei de Segurança Nacional. Já não são apenas os antigos opositores a reclamar da má conduta do Presidente da Republica e dos que se fazem seus obedientes vassalos. Mesmo aliados recentes comprados a peso de ouro e do desdouro pelos interesses da maioria, percebem o abismo para onde rumamos, validando a apreciação generalizada na opinião publica internacional. Fenômeno reiteradamente indicado pelo governo de crescente número de países e de organizações multilaterais. Pôr um fim nessas práticas autoritárias é dever prioritário dos poderes Legislativo e Judiciário, se levam a sério a pretensão de consolidar um verdadeiro Estado Democrático de Direito. Pilha livre, sem que se deem pilhas aos saudosos da ditadura!

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