Com a bola no chão

Passado o compreensível alívio, mais que euforia, pela vitória de Joe Biden na eleição presidencial dos Estados Unidos da América do Norte, chega a hora de baixar a bola. É como fazem os times de futebol, quando enfrentam dificuldades decorrentes do mau desempenho em campo. Zagueiros não conseguem deter o ímpeto dos atacantes adversários, o goleiro sai mal do gol, o meio de campo é ignorado pelos companheiros e o jeito é dar botinadas a torto e direito, à esquerda e à direita do gramado. Ponhamos, portanto, a bola para correr sobre a grama. Mesmo com o risco de ver a cobertura vegetal consumida pela fome voraz de grande número de jogadores. Joe Biden, é bom lembrar, foi eleito menos por excepcionais virtudes ostentadas, que pelos muitos vícios que fazem de seu opositor uma figura abjeta. Isso não autoriza dizer que o ex-vice Presidente de Barack Obama é menos norte-americano que Trump. Os números da eleição mostram cabalmente as duas faces da mesma moeda. Uma delas, menos irascível e orientada pelo ódio, se comparada à outra. A mesma face que logo será mostrada em toda sua realidade, porque passará a ocupar o ponto mais visível do cenário, o pódio politico. As mudanças esperadas, dentro e fora do país mais poderoso e belicoso do Mundo, então, não podem ceder à constatação do momento. Elas hão de considerar desde a própria história norte-americana, até a história de todos os demais países com os quais a nação de Lincoln mantém relações. De Donald Trump, para ficar num só mas eloquente exemplo, pode-se esperar tudo quanto repugna à sociedade humana. Até a pressão sobre o botão vermelho, como sutilmente advertiu semana passada o Chefe do Estado-maior das forças britânicas. Nem o fato de Biden levar consigo para a Casa Branca uma negra, diz da força das convicções democráticas do Presidente eleito. Lá, como cá, o oportunismo ainda integra o cardápio político, em fórmulas que nem os mais experientes e competentes cozinheiros conseguem produzir. Esse tem sido item dos mais criativos na história política dos países. Com relação ao Brasil e, especificamente, a Amazônia, continua a impor-se conduta ameaçada pelo patriotismo subserviente dos que, com a mão posta sobre o peito, entoam emocionados o hino da nação mais poderosa. Para depois, genuflexos, renderem homenagem à bandeira dela. Trump, Biden, seja qual for o governante dos Estados Unidos da América do Norte ou de qualquer outro país, o que interessa aos brasileiros, se não cabemos todos na definição de Nélson Rodrigues, é preservar a dignidade nacional - o que resta, diante do processo de globalização a que todos estamos condenados. Particularmente quanto à Amazônia, penso que tirar proveito de nossa importância no clima global é ponto crucial. Depois, dada a exuberância e a riqueza contidas em nossas florestas, rios e subsolo, precisamos cada vez mais estudá-los e, adotados os cuidados para não os esgotar, fazê-los todos fatores do desenvolvimento. Sem nunca esquecer o recomendado pelo mestre Samuel Benchimol: crescer é fazer maior; desenvolver é fazer melhor. Esperar que Biden seja o grande pai dos pobres e empobrecidos equivale a ignorar a história, a deles e a nossa.

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