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Ciência, tecnologia e desenvolvimento regional: desafios brasileiros na Amazônia

há 12 minutos
6 min de leitura

Jornal da Ciência

Marilene Corrêa*


Em pleno 2026, o Brasil está em vias de dar um salto de qualidade rumo ao seu destino de grande nação. Esta transformação de status político colocará o país no plano de uma sociedade democrática, soberana, com seus territórios integrados e focados nos desafios do futuro, consolidando sua vocação pacífica e independente no centro e nas fronteiras da América do Sul. A nação brasileira, zelosa e atenta aos movimentos externos que possam interferir nas decisões do seu povo neste país continental, prossegue em sua jornada, segura de si. Esta oportunidade é concreta se compreendermos que a reeleição de Lula é imperiosa.

Essa expectativa tem base material, histórica e econômica como possibilidade de realização. Mas também tem demandas e missões estratégicas a serem cumpridas, entre as quais a exigência de transformações institucionais, de alterações no ordenamento da distribuição do poder, e na esfera de realização da comunidade política nacional.

É no nível dessas demandas e do posicionamento estratégico das forças políticas que os dinamismos entre a sociedade nacional e as regiões tornam-se cada vez mais explícitos. Por ocasião das eleições gerais, o processo democrático expõe diferenças, conflitos e distâncias. A disputa pelo poder político expõe clareiras de necessidades ainda não satisfeitas, lacunas de inteligência e resíduos de colonialidades. Em um país como o Brasil, diverso e desigual, o “destino” das regiões pode se apresentar como uma possibilidade histórica ou uma escolha dramática.

O Brasil tem uma agenda de afirmação de suas escolhas e tem sustentado essas posições nos BRICS, no G20, na ONU. Na COP 30 de 2025, a Amazônia foi apresentada como território físico e simbólico dos desafios planetários. Além do mais, desde a Eco-92, a região “perde” o estatuto de região brasileira desigualmente integrada na sociedade nacional para assumir a condição de bioma indispensável à regulação climática da Terra. A diplomacia brasileira, sob a liderança de Lula, compreendeu a missão do país na Amazônia continental. Essa bússola torna-se imprescindível ao futuro do país.

Pelas mãos da ciência, a Amazônia brasileira está integrada ao debate nacional por suas condições históricas, naturais e, sobretudo, geopolíticas. Está em todas as preocupações das sociedades científicas, e na representação da SBPC. Pelas mãos da ciência, os biomas brasileiros podem se tornar sustentáveis; o conhecimento científico pode protegê-los da devastação, e os repertórios de pesquisa podem acumular e diligenciar evidências para induzir mudanças necessárias às políticas públicas. A diversidade sociocultural, a extensão territorial e as riquezas da região permitem que a Amazônia reclame a condição de laboratório do mundo, articulado pela soberania do Brasil. A condição de duplo estatuto político e ecológico da região é emblemática nesse aspecto.

Como unidade federativa, a região está sub-representada política e demograficamente, mas como bioma ela alcança espaço e importância nas relações internacionais, espaço e lugar do mundo pactuado em torno da sobrevivência planetária. Diante das eleições à presidência do Brasil, o futuro da Amazônia está anunciado, claramente, nos projetos políticos em disputa dos candidatos à presidência.  A região foi laboratório de morte da Covid-19 no governo Bolsonaro; território da violência contra povos indígenas e populações tradicionais, fronteira aberta do capitalismo predatório para acelerar a destruição dos biomas e ecossistemas e liberar a fronteira da especulação à produção de estoque de terras e recursos estratégicos. Esses fatos do passado recente não podem ser esquecidos pela hipocrisia de programas eleitorais, mas são exemplos que devem orientar as escolhas. Relacionar a violência na região com a ascensão e predomínio de grupos políticos tem sido tarefa da ciência política que estuda tipologias de governança na região. Pelo olhar da ciência, que vê simultaneamente a Amazônia como unidade federativa do Brasil e como bioma, a região pode mobilizar a consciência nacional e o pertencimento de suas culturas, gentes, e terras do Trópico Úmido, seja para a produção coletiva de uma memória das perdas, seja para ressignificar a história política em torno de um projeto de futuro do desenvolvimento sustentável brasileiro. Descentralizar as perspectivas do Brasil soberano significa cercar de cuidados o norte do Brasil como região estratégica da transformação do país.

São amplas as vias de acesso à possibilidade de a Amazônia influenciar as decisões e escolhas do Brasil soberano. Documentos das instituições universitárias e institutos de pesquisa da região norte registraram as estruturas técnicas e materiais, as cadeias científicas instaladas, o conhecimento produzido e os processos de inovação, a demonstrar que a região não parte do zero. Em toda a Amazônia Legal tem 455 unidades interiorizadas de ensino universitário e instituições de ciência e tecnologia. São 650 cursos de pós-graduação e a formação de 100 mil profissionais/ano pelas universidades amazônicas. O subfinanciamento dessa população educada e apta para servir ao Brasil e ao povo brasileiro precisa ser encarado pelo Estado como uma das importantes transformações a serem realizadas. Propostas em construção ganham formato institucional e se apresentam como entregas da sociedade civil representada no CDESS, para avaliação da Presidência da República.

A mobilização científica em torno da Amazônia estabeleceu prioridades e agendas em torno de eixos e objetivos reclamados às IES, INCt´S e IPES pelas autoridades responsáveis pela COP 30. A título de exemplo, as contribuições dos campos disciplinares  que  abordam a transição nos setores de energia, indústria e transporte, e a gestão sustentável das florestas, oceanos e da biodiversidade,  indicaram os diagnósticos e o cenário prospectivo em que a necessidade de triplicar energias renováveis e dobrar a eficiência energética poderia ser atendida mediante geração solar, biocombustíveis, biomassa, energia eólica, hidrogênio verde; projetos-piloto de microgeração distribuída e ações de eficiência energética em comunidades e instituições públicas. Do mesmo modo, diante da necessidade de “aceleração de tecnologias de zero e de baixas emissões em setores de difícil descarbonização”, foram enunciadas soluções para cadeias produtivas de base florestal e substituição de combustíveis fósseis na indústria por fontes renováveis, tornando os processos produtivos mais eficientes, combinando inovação tecnológica e integração com saberes locais. Exemplo subsequente, registrado no documento, é o que se refere aos “investimentos para parar e reverter o desmatamento e a degradação florestal”. Mediante combinações de medidas de intervenção científica e tecnológica, associadas às estratégias  de comando e controle dos territórios amazônicos, a produção de “monitoramento contínuo e por sensoriamento remoto, inventários florestais, tecnologias para manejo florestal de baixo impacto e recuperação de áreas degradadas, proteção de vegetação secundária, tecnologias de manejo de fogo, capacitação de comunidades locais e povos indígenas no manejo sustentável, fortalecendo as cadeias produtivas de base florestal” , mostram-se capazes de enfrentar os desastres recentes de incêndios naturais e criminosos. Esforços para conservar, proteger e restaurar a natureza e ecossistemas com soluções para o clima, biodiversidade e desertificação, mediante “metodologias inovadoras para a restauração ecológica, integrando conhecimentos científicos e tradicionais, ao mesmo tempo em que buscam gerar informações para a diminuição de lacunas de conhecimento que ainda são grandes no bioma” mostram que a comunidade científica instalada tem clareza política da importância de sua intervenção na região e do seu próprio futuro.

A Amazônia brasileira pode ser um laboratório científico do mundo, um projeto político sob a responsabilidade da inteligência científica brasileira. Poderia induzir um sentido para a sociedade nacional e o seu lugar no debate mundial.  Desafio dessa ordem de importância é simultaneamente geopolítico e histórico.

Em recente documento da Fundação Perseu Abramo, que expressa a posição política orgânica dos segmentos sociais comprometidos com a reeleição de Lula, e que foi objeto do Seminário Soberania e Amazônia realizado pela Fundação Perseu Abramo, a centralidade da região no programa de governo presidencial está entre as prioridades anunciadas. Os responsáveis pelo texto são treinados na escuta e na apreensão de percepções coletivas da divergência democrática, essenciais para refinar as decisões em torno de temas sensíveis. O documento expõe o desafio político de tratar a Amazônia como estratégia do Estado brasileiro: “a Amazônia deve deixar de ocupar um lugar periférico na agenda ambiental para converter-se em um dos principais eixos da estratégia nacional de desenvolvimento — da política externa, da inserção internacional, da ciência, da cultura e da democracia brasileira”.

Em síntese, não há futuro para a região sem a inclusão da ciência entre os dispositivos mobilizados para operar a grande mudança. Em primeiro lugar, as populações amazônicas, sem exceção, são sujeitos estratégicos da conservação, da produção do conhecimento e de modelos de organização societária. Essa diversidade e pluralidade não empobrecem o Brasil; ao contrário, são a sua riqueza. Esse contexto favorece o protagonismo internacional nas agendas diplomáticas e nas políticas internas que articulam os territórios, sociedades e culturas amazônicos. A acentuação importante é o destaque atribuído à bioeconomia, à sociobiodiversidade e ao financiamento de florestas. Esses vetores são indissociáveis de uma nova estratégia de desenvolvimento baseada em ciência, inovação, agregação de valor e economia de baixo carbono. “A floresta em pé vale mais do que a terra desmatada. E a floresta habitada vale mais do que a floresta vazia”. Por isso, o posicionamento geopolítico da PanAmazônia é importante nos formatos de governança da Amazônia brasileira. Por isso, a consolidação de uma política científica e tecnológica não pode estar restrita aos formatos nacionais de competição entre campos e grupos de excelência nacionais e grupos regionais emergentes, nem proclamada por editais nacionais de efeitos setoriais e excludentes, mas centralizada nos objetivos estratégicos do futuro do Brasil.

Pelas mãos da ciência, o desafio do futuro da região amazônica tem efeito mobilizador de missão nacional. A Amazônia não pode ser tema de pesquisa sem ser sede de pesquisa. Escolhas políticas são posições do lado da história pelas quais se acredita que respondem aos desafios de estar no mundo, nesse contexto político do Brasil.

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*Marilene Corrêa é professora titular da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e diretora da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

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