top of page

Certo tipo de patriotismo

Sem lembrar sequer de quem o disse pela primeira vez, sei que muitos consideram o patriotismo o último refúgio dos canalhas. Embora não compartilhe desse sentimento, espero pela resposta a um dos mais instigantes dilemas que o processo de globalização pôs diante da sociedade humana: o que resta de patriotismo, quando as próprias fronteiras físicas quase nada significam? Menciono apenas as fronteiras físicas, porque as outras há tempo foram rompidas. Bastaria mencionar simplesmente a migração dos capitais, percorrendo o mundo em 24 horas. Ali compra consciências e mandatos, acolá desaloja tradicionais ocupantes dos territórios originais. Sempre com a voracidade e a violência de que se gabam os acumuladores, firmes na já comprovada crença: o capital não tem pátria, nem coração. Um artigo de fé, portanto. O que me põe em dúvida tem pouco a ver com os tempos em que era possível admitir alguma sinceridade na proclamação do patriotismo. Mesmo sem esquecer que em nome dele Hitler matou milhões de judeus e de outros povos. O que sugere maior dificuldade em pensar do patriotismo e dos que se dizem patriotas, ao mesmo tempo em que rendem homenagens para os símbolos nacionais de outros países e dilapidam o patrimônio comum do país em que nasceram e vivem. Reservando alguns segundos para vangloriarem-se de ter combatido o líder alemão de cujas práticas se revelam aplicados discípulos. Resisto à ideia de associar a canalhice ao patriotismo. Não há demonstrações suficientes, porém, de que tal relação enfrentará resposta negativa, se os exemplos de proximidade entre os dois – canalhice e patriotismo – não cessa e cada dia se vai estreitando.

3 visualizações1 comentário

Posts recentes

Ver tudo

França e franceses

Mais uma vez vem da França o anúncio de novos avanços na História. Esta quinta-feira marca momento importante daquela sociedade, há mais de dois séculos sacudida pelo lema liberté, fraternité, egalité

Uso indevido

Muito do que se conhece dos povos mais antigos é devido à tradição oral e a outras formas de registro da realidade de então. Avulta nesse acúmulo e transmissão de conhecimentos a obra de escritores, f

Terei razão - ou não

Imagino-me general reformado, cuja atividade principal é ler os jornalões, quando não estou frente à televisão, clicando nervosamente o teclado do controle remoto. Entre uma espiada mais demorada e ou

1 Comment


Meu bom Seráfico, permita-me uma visão diferente.

Eu concordo que o patriotismo é o último refúgio dos canalhas, pois é escudado nele que esses canalhas perpetram crimes contra a humanidade, relativizando-os.

Assim como a religião também poderia ser colocada nessa nau (perdão, não na sua nau) de insensatos. Em nome dela se cometem absurdos.

Eu prefiro ser considerado um nacionalista do que um patriota. Acho que ainda chegaremos ao consenso de que , antes de tudo, somos terráqueos.

Imagino que, com a provável evolução tecnológica e moral e possíveis contatos com extraterrestres, um dia nos tornaremos via-lactantes e assim por em diante.

Like
bottom of page