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Celebridades e missão

Quando já pensava ter visto tudo quanto é forma de ver o mundo, sou surpreendido. Fatos e relatos se sucedem, sem que a substância de uns e outros prevaleça sobre as coisas menores. Os temas, problemas, assuntos e interpretações considerados ou analisados invertem a ordem dos fatores, ao sabor de interesses, crenças, preconceitos e compromissos dos divulgadores. Nestes dias chuvosos em todo o País, um ex-Presidente da República experimenta sensações semelhantes às que perturbam qualquer suspeito de crimes em fase de investigação. Seu sucessor ocupa-se em coisas de menor importância, em grande medida por sua inadmissível incontinência verbal. Policiais continuam matando pobres e pretos em todas as regiões. Senadores e deputados continuam sua inglória faina, frequentemente vinculada a práticas que consideramos chantagistas. No exterior, o atendimento humanitário devido a populações sob risco de eliminação é impedido por decisões e ações genocidas. Em outro lugar, o simulacro de eleição anuncia a perpetuação no poder e justifica a explosão supostamente indignada de criticos igualmente hostis à democracia. Mas grande parte dos comunicadores gasta substancial porção do tempo de trabalho na cobertura de crime cometido por um atleta brasileiro, há anos morando fora do Brasil. Não se tem tratado do assunto com o propósito de esclarecer os leitores, telespectadores ou ouvintes sobre os institutos jurídicos do tipo de crime praticado, das implicações internacionais nele envolvidas, do etos sobre o qual se produzem criminosos desse tipo. Os meios de comunicação que os alçaram à condição de celebridade são os mesmos que oferecem ampla cobertura, com prejuízo dos que se dispõem a ler e avaliar as grandes questões nacionais. Os problemas que têm a periferia das cidades como vítimas certas, a violência distribuída sobre base excludente e discriminatória, as agressões gratuitas ou bem pagas, a persistente atuação de milícias ou facções criminosas, nada disso desfruta de tanto espaço. Para isso criam-se celebridades. Estimula-se, acelerando, a produção de celerados. E se dá por cumprida a ignóbil missão.

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