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Céu e estrelas

Agora, que o quase ex-tenente-coronel Mauro Cid resolveu lançar a última cartada, a discussão ganha outros contornos. Já não se põe em jogo a existência de crimes ou não. Tudo quanto chegou ao conhecimento público, por muito que ainda haja a apurar, autoriza dizê-lo. A organização criminosa instalada no Palácio do Planalto e seus arredores tem seu funcionamento posto sobre a mesa. A confirmação veio da boca de um dos protagonistas, cuja preocupação prioritária passou a ser defender-se e defender seus familiares mais próximos. Sendo mais claro - o próprio pai e a própria mulher. É certo que a confissão só pode comparar-se à delação quanto ao órgão humano envolvido. Se não há dedo rijo apontado em direção aos envolvidos, é imperativo reconhecer o caráter revelador de que se revestem ambas, confissão e delação. Num certo sentido, a estima que os militares que se dizem honrados têm pelos dedos-duros se exaure quando o serviço prestado pelo delator foi bastante. Não é só a morte, com ou sem tortura, que vai para o esquecimento. Quando ocorre de um dos camaradas levar adiante a aventura golpista e assassina, os honrados querem ver os dedos-duros pelas costas. É bem disso que se trata. Claro e plausível que Mauro Cid vislumbre a oportunidade de receber algum tipo de benefício, além do favor da morte fictícia. Quem sabe até um prêmio a quem enodoou a organização a que um dia terá pertencido? Talvez em raros momentos de nossa História teremos visto justo e indignado empenho das autoridades públicas, no mais transparente exercício do civismo. Não precisa ir longe demais, para relacionar esse termo e o sentimento que ele expressa, com o processo civilizatório. Não bastam, contudo, apenas as palavras. Estas, como se sabe, têm o uso que lhes quer dar o falante. Por isso, a morte e a tortura têm sido atribuídas à vontade de Deus. Não se sabe qual, mas isso não conta, porque a barbárie também é prática a que não se furtam os que, em geral cenhos cerrados e fisionomia aparentemente austera, proclamam seu amor à civilização. Tanto quanto o traje não torna virtuoso qualquer cidadão, também não o coloca acima dos outros, a que chamamos genericamente, civis. Estes, porém, se não são bárbaros, nem por isso devem ser considerados comprometidos com o processo civilizatório. É isso o que a Constituição Federal, a de 1988 e outras que a antecederam, determina. Todos são iguais perante a Lei. Dê-se a todos, portanto, o que de direito lhes cabe; inclusive a punição pelos atos delinquentes que por ventura tenham praticado. Importa pouco se foram atos e fatos relatados e confessados. Basta que sejam atos e fatos comprovados. O céu de todos é igual. Não há mais ou menos estrelas no céu que é de todos.

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