Bravura dos covardes

Chororô e chantagem mal disfarçada desta vez não deram certo. As mais otimistas previsões foram superadas e cerca de 70% dos membros da Câmara dos Deputados ratificaram a decisão unânime do Supremo Tribunal Federal. Daniel Silveira permanecerá preso, tornada vã a tentativa de estimular o corporativismo de seus colegas ou a chantagem ensaiada. Esta, embutida na lembrança por ele expressa e claramente perceptível de que lá nenhum dos que têm assento traz consigo asas e coroinha. Amanhã, disse o agressor da democracia, é na direção de vocês que o STF dirigirá seu foco. E tentou mostrar-se um igual aos outros deputados, como se a Câmara não passasse do coletivo de falsificadores de documentos, conspurcadores da Constituição, agressores da honra alheia. Quase chorando, Silveira apenas confirmou o que as pessoas mais sensatas dizem a respeito dos amantes das armas: os pequenos artefatos bélicos atribuem coragem aos que dela não dispõem. Arrogante, agressivo, prepotente, o deputado excluído da Polícia Militar do Rio de Janeiro vestiu-se em pele de cordeiro e ofereceu espetáculo patético, resumo de um tempo em que medra todo tipo de covardia. Desta vez, porém, não obteve o mesmo resultado da eleição que o guindou à posição de representação popular. Foi fácil iludir mais de 32 mil eleitores, que 360 dos pares a quem essa paridade parece abominável. Disso dirá o futuro, se o processo na Comissão de Ética da Câmara dos Deputados levar a sério suas responsabilidades. Não se podem ignorar certas peculiaridades do Parlamento, onde as questões sempre haverão de propiciar e provocar muita conversa. O próprio nome do poder o justifica. Isso não quer dizer que é uma fatalidade tudo terminar em pizza, como a verve do brasileiro bem-humorado o diz. Por isso, avançar qualquer palpite sobre o desfecho do caso criado pelos impropérios do parlamentar fluminense, pelo menos por enquanto parece despropositado. Tanto ele pode ver-se lançado às feras e cassado, quanto pode ser encontrada solução mais branda, de que uma suspensão ou advertência se fará tradutora. No primeiro caso, a punição não será novidade para o punido, se observados os registros de seu currículo. Poderá, porém, advertir outros deputados e fazê-los, sem as câmeras de ontem, repetir o chororô de Daniel Silveira. No segundo caso, será ingênuo quem imaginar que a leniência modificará a personalidade, as preferências e o caráter do único beneficiário, o próprio Daniel.

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