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BR-319 e a ideia da Amazônia como santuário de carapanã*



Recebi um vídeo enviado pela amiga Astrid Lima, lá da Itália, onde mora há quase 30 anos e é contra a pavimentação da BR-319. Até eu seria contra, se vivesse na Europa, _mio caro._

O vídeo é uma entrevista com o biólogo Lucas Ferrante, um estudioso da Amazônia. Seu único problema é a falta de sensibilidade social.

Diz o pesquisador que a BR-319 dará acesso a grileiros e ao crime organizado.

Não sabe o incauto que a grilagem de terras no entorno da BR é avassaladora, mesmo com a precariedade da estrada. Municípios dos rios madeira e Purus vivem em tensão com a ocupação ilegal e desordenada do seu território. Basta ver a situação de Novo Aripuanã e Lábrea. A razão é simples: o crime tem grana e não precisa de estrada feita pelo Estado. Ele faz a estrada e o aeroporto.

Quanto ao crime organizado, não sei onde o biólogo vive, mas aqui no Amazonas os criminosos entram pela fronteira, em potentes embarcações e pequenos aviões. Não temos notícia de carga de drogas apreendidas na BR-319.

No meio da entrevista, concedida à Bandnews, a jornalista pergunta qual a alternativa de interligação do Amazonas ao Brasil, sem que tenhamos que passar dias navegando ou pagar preços exorbitantes de passagens aéreas. Lucas enrolou e não apresentou uma alternativa. Se limitou a dizer que as passagens áreas deveriam baixar de preço. Descobriu a pólvora.

Não satisfeito, Ferrante considera um absurdo o amazonense querer ir de carro para Curitiba. Chega ao descalabro de dizer que a rodovia não suportaria. Quer dizer que a estrada deverá te perguntar: vai pra Cuiabá ou Curitiba? Se for pra Curitiba, eu não aguento.

A jornalista ainda insistiu na necessidade de um modal terrestre para tráfego de pessoas e de produtos ligando Manaus ao Brasil. Lucas Ferrante descartou também a ferrovia. Tudo causará impacto ambiental.

É óbvio que uma estrada causa impacto ambiental, mas a 319 foi construída na década de 70 e o Amazonas tem hoje 98% de cobertura florestal. Esse argumento do isolamento para preservar a floresta não é verdadeiro e é desumano, ao desconsiderar a existência de quase 4 milhões de brasileiros que têm direito à cidadania.

Essa ideia de santuário de carapanã, que alguns ambientalistas defendem para a Amazônia, é desproporcional às necessidades da nossa genta. Somos cerca de 28 milhões de seres humanos e nossa existência precisa ser levada em consideração. Nós não podemos sofrer mais essa violência pela ineficiência do Estado brasileiro.

A BR-319 já existe. Está faltando apenas 400 quilômetros para sua pavimentação total. Isso vai beneficiar milhares de comunidades rurais, populações tradicionais, agricultores familiares, que vivem abandonados pelo Estado, sofrendo violência de grileiros de madeireiros.

A posição contrária à pavimentação da estrada não é somente de um segmento de defensores da natureza intocada.. Ela tem como aliado os grandes empresários da cabotagem, donos de balsas, que perderão com um modal terrestre viável e rápido.

Tem dedo do capital nessa paixão contrária à BR.

Quem vive no Amazonas sabe da importância da estrada. Somos quase 4 milhões de amazonenses, brasileiros, e não temos nenhum problema em conviver com os carapanãs, mas desconsiderar nossa existência é de uma maldade sem tamanho.

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*Lúcio Carril

Sociólogo

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