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As escolhas

Mais difícil que governar é escolher com quem se governa. Salvo nos regimes autocráticos, as decisões e tarefas de todo governante não têm um só pai ou um só executor. Também é certo estar no entorno do governante a fonte de recrutamento dos que o ajudarão a dirigir - um negócio, uma cidade, um Estado, uma nação. Quais as pessoas de que se conhece melhor o rol de aptidões, sentimentos, valores e práticas, se não o círculo que nos é mais próximo? Maior a quantidade de pessoas que cercam o líder, e mais diversos seus pontos de vista, menor a probabilidade de errar. Em igual medida, maior a possibilidade de promover substituições, sempre que isso de mostre necessário. Em certo sentido, vale a sentença produzida pela sabedoria popular - dize-me com quem andas, dir-te-ei (perdão, Michel Temer!) quem és. A muitos pareceu descabido ampliar a Comissão de Transição, com o convite feito por Lula a, diz-se à boca pequena, quase mil profissionais dos mais variados setores. O que uns colocam na sua quota de má vontade e hostilidade, eu consideraria vantajoso para quem se habilita a governar pela terceira vez o Brasil. No rol dos que o Tripresidente chamou para contribuir não se identifica, pelo menos até o momento, alguém acusado de pertencer a alguma milícia, de devastar as florestas, de concorrer para a morte de 700 mil brasileiros, de negar oxigênio a vítimas de qualquer doença, invadir territórios indígenas, desmantelar o sistema nacional de imunização, desprestigiar a Ciência, privar o sistema educacional público dos meios necessários ao seu satisfatório funcionamento, hostilizar países e governantes estrangeiros - enfim, praticar tudo quanto constou do cotidiano dos brasileiros nestes últimos quatro anos. Também de nenhum desses colaboradores da Comissão de Transição se terá ouvido a confissão de sonegação de impostos, o louvor à tortura, a probabilidade de estuprar segundo a aparência física da vítima potencial, a pilhéria relativa ao sofrimento físico ou emocional, a recusa em proteger terceiros de enfermidade fatal - enfim, tudo aquilo que, por distração ou cumplicidade constituiu prática recorrente do (des)governo moribundo. Por isso, se compararmos o ambiente em que trabalha a Comissão de Transição atual com a que a antecedeu, poderemos alimentar a expectativa de que a escolha da equipe de Lula será incomparavelmente melhor. Há divergências políticas e ideológicas, mas isso não atesta mais que a tolerância para com as diferenças e - mais que tudo - o desejo de governar o País em nome da maioria, não de uma seita, um partido, uma profissão, um grupo econômico ou social. Um governo de, para e com todos. Se o Poder Legislativo também entender assim, melhor para o Brasil e para os brasileiros. Deixo o Poder Judiciário de fora pelo simples fato de que sua intervenção só se dá quando Legislativo e Executivo não se entendem. Nem entendem o que o povo pretende deles.

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