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Apuí da Ciência*

Conhecido como “polvo vegetal”, o apuí pertence ao gênero fícus, da família das Moreacea. Tem como irmãos a jaqueira, o fruta-pão, o caucho, a caxinguba, a gameleira, a guariúba, o manitê, o inharé, dentre as 850 espécies familiares.

Sobre o apuí, o que quase todo leigo sabe é da capacidade de, enrolando-se em outra árvore, levá-la à morte. Seus numerosos tentáculos envolvem a vítima e retiram-lhe a seiva até a exaustão. Aparentemente aliadas na luta pela sobrevivência, sorrateiramente o apuí contradiz as aparências.

Das informações acima, dadas pelo pesquisador Altino Machado, algumas são mencionadas por Alberto Rangel, em seu Inferno verde (1908).

O reino animal também tem exemplos desse exercício parasitário. Pulgas, percevejos e outros pequenos animais comprometem a saúde dos que os acolhem. Muitas vezes, levando à exaustão de todas as reservas vitais de suas vítimas.

Nem o homem foge ao que parece a sina dos seres vivos – deixarem-se parasitar e, frequentemente, pagarem por isso com a própria vida.

Apuí ou apuiseiro é uma árvore típica da Amazônia. Em tupi, significa braço forte.

O que parecia fora de propósito, a ação predatória do apuí pode ser igualmente apreciada exercendo-se sobre organizações. Tal fenômeno torna-se mais evidente, quando entre elas deveriam prevalecer as regras de saudável parceria.

Refiro-me, especificamente, à pouca visibilidade dos riscos em que se envolvem as fundações de apoio a seja lá o que for. Emprestando sua competência administrativa e financeira aos interessados, as fundações trabalham sob risco permanente. Tudo quanto as organizações e pesquisadores apoiados façam de mau, primeiro repercutirá sobre elas. Só remotamente – e quando isso ocorre – o apuí científico sofre algum tipo de dano. A imagem que me vem à mente é a do afogado que, abraçando o salva-vidas, leva-o junto para o fundo das águas.

Mais frequente do que se imagina, a ação do apuí humano ou organizacional tem comprometido a estabilidade e, em consequência, o bom funcionamento das fundações. Talvez isso explique porque muitas, se não a maioria delas, é dada como inadimplente junto às agências financiadoras, devedora junto aos fornecedores e má pagadora diante da Justiça do Trabalho e outros órgãos e entidades.

Não sei se a ciência consegue estancar a ação do apuí sobre suas vítimas. Sei, porém que o fenômeno, quando envolve pessoas e organizações, seria facilmente evitado, se entendido o verdadeiro caráter da parceria. Para tanto, bastaria eliminar o risco de estabelecer-se relação parasitária. Um e outro dos parceiros deveriam entender-se mais como irmãos xifópagos. O destino de um é o destino do outro; o êxito de um é a vitória do outro; o fracasso de um é a frustração do parceiro.

Assim, de um lado as fundações respeitariam as exigências científicas e metodológicas; do outro, os pesquisadores e suas organizações cederiam o espaço administrativo, financeiro, contábil e legal daquelas. As leis da natureza, tão benquistas pelos estudiosos, não prejudicariam a obediência às leis dos homens, a que estão obrigadas as gestoras de recursos destinados à produção científica.

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O autor, José Seráfico foi diretor executivo da Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera (FDB). Formado em direito é professor aposentado pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “Desafio Amazônico”, "A Propósito de Ciência e Pesquisa" e “A República dos Anões” são algumas das obras escritas por ele. Este texto foi originalmente publicado em Manaus, em Ciência em Pauta, periódico da SECTI-AM, Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação do Amazonas, 19 de fevereiro de 2013.


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