Anunciada...mas nem por isso

A forma como a covid-19 vem sendo encarada pelo governo federal responde pela tragédia que já matou mais de duzentos mil brasileiros, e ainda matará não se sabe quantos mais. O desespero que tomou conta de Manaus, nos últimos dias, intensificou-se na sexta-feira, quando ficaram mais evidentes os efeitos da conduta das autoridades federais, desde o topo da hierarquia republicana. Como sempre tem ocorrido ao longo do período que vem de março de 2020, o assunto tem sido tratado com desdém e fastio pelo próprio Presidente da República. É dele, exclusivamente, a responsabilidade pela classificação da pandemia como uma gripezinha. Não é de outra pessoa a decisão de remover ou forçar a deserção do topo do Ministério da Saúde de profissionais competentes afeitos às questões específicas do setor. Tal alteração, sob qualquer hipótese inoportuna, teve a agrava-la a designação de um General cuja competência técnica, maior tenha sido na caserna (e disso nada se sabe), em momento algum se terá revelado no Ministério da Saúde. Mesmo se atribuídos ao Presidente os atropelos e obstáculos por ele mesmo criados, o intendente-Ministro encarregou-se de deixar clara sua condição de serviçal do chefe, não de um servidor público ciente de seus deveres e responsabilidades. Esta não é história inventada por eventuais opositores, tanto esse é grupo intimidado e recolhido, feitas as necessárias exceções. Nem pode servir mais uma vez à alegação repetitiva de obra de uma imprensa desonesta. Toda a nação testemunhou o encontro do Presidente e seu subordinado, ironicamente reunidos no hospital em que o segundo se recuperava do mal que matou mais do que todos os conflitos armados de que o País participou em toda sua história. Não são só esses eventos e o cenário em que se realizaram as razões por que se entenderá a denúncia feita ao Tribunal Penal Internacional. Dão substância à denúncia, também, a indução da população ao uso de medicamentos cuja eficácia não tem o aval da Ciência e a proposital indiferença quanto às advertências de cientistas e especialistas, nos primeiros momentos da crise sanitária. Hoje, assiste-se em Manaus ao que pode ser apenas o ensaio geral de tragédia mais ampla, estendida a todo o país. Já agora, com a participação de agentes mais numerosos, tantos quantos compareceram a aglomerações proibidas pelas autoridades (in)competentes. Se a denúncia levada ao Tribunal de Haia tenta provar – e se o conseguir – ser o Presidente da República um genocida, há que incluir na mesma categoria a multidão de egoístas irresponsáveis. Como o serão, igualmente, os disseminadores das mensagens marcadas por indiscutível charlatanismo. A tragédia foi anunciada mas houve quem fizesse ouvidos de mercador.

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