Amplitude da frente

Há quem veja como nova esperteza do ex-Presidente Lula a aproximação com Geraldo Alkmin. Segundo a jornalista Vera Magalhães, o gesto do ex-líder operário pode ser interpretado como a criação de uma frente ampla, cujo resultado inicial teria sido o tiro de misericórdia na tal terceira via. Outros têm lembrado o movimento que reunia em torno da mesma mesa o brilhante mas geralmente in justo jornalista Carlos Werneck de Lacerda, Juscelino Kubitscheck de Oliveira e João Goulart. Em grande medida, a aproximação dos três teria desembocado na campanha das Diretas, já! e na criação do Movimento Democrático Brasileiro, MDB. Lacerda vinha de pelo menos duas frustrações políticas (a primeira delas quando o golpe de 1954 contra Getúlio foi abortado; a outra, quando os militares que tanto aplaudiu e exortou à derrubada de Jango, o afastaram do cenário) e acabou inimigo dos golpistas. Juscelino conseguira colocar o Brasil no rol dos países aptos a seguir trajetória capitalista, dependente que o fosse. João Goulart, como se sabe, embora eleito vice-Presidente em pleito legítimo, foi impedido de assumir seus poderes. Disso resultou experiência parlamentarista (setembro de 1961-janeiro de 1963) frequentemente esquecida dos comentaristas. A ascensão de Luís Inácio Lula da Silva, uma liderança popular gestada no embate entre capital e trabalho, a princípio não causou reação vigorosa, como a que agora se observa. A Carta ao Povo Brasileiro, como renúncia às teses mais caras aos fundadores do Partido dos Trabalhadores, foi a carta de seguro encontrada para remover óbices e ganhar aliados. Afinal, eleição só é ato político para os que vivem da política; para os que se interessam por investimentos e seus resultados, não passa disso mesmo. Os ganhos conquistados pelos mais pobres não se sustentaram. Hoje, a maioria deles está revogada, não bastando, porém, para estancar a precarização crescente - dos salários e de tudo o mais quanto diz respeito às classes subalternizadas. O capital, insatisfeito seja qual for o nível de acumulação atingido, não se contenta com o que já tem e a forma como o obteve, se houver alternativa de ganhos ainda maiores, mesmo à custa do uso de força. Não fora assim, parte do empresariado brasileiro teria negado financiar golpes de Estado e aparelhos para uso na tortura de divergentes. Disso a História dá conta, não importa os cultores de ignorância que se vê sempre multiplicada. Se há uma frente ampla real ou ainda em processo de construção, é difícil asseverar. Menos, ainda, qual será sua amplitude - no espectro político e no tempo de duração.

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