Alma pequena

A iminência de passarmos por uma segunda versão da chamada debâcle da borracha faz emergir o clima esquizofrênico em que vivem as lideranças amazonenses. Cegas, mudas e surdas durante décadas, interessa-lhes pouco compreender a dinâmica das relações sociais, pior ainda quando a velocidade mostra o desmanche de tudo quanto parecia sólido. Não são cegos como aqueles que a natureza puniu com a impossibilidade física de ver. A cegueira de que são portadores é imposta por toda sorte de conveniências, espertezas, interesses raramente coincidentes com os da maioria. Não veem porque nada ganham, enxergando. Quando muito, e se ocorre de enxergar, fazem-se de surdos aos clamores de segmentos que, excluídos dos ganhos por eles conquistados, tentaram como ainda teimam em tentar, apontam vícios e (vá lá...!) equívocos cometidos pelos governantes. Há hora, inclusive, em que se tornam mudos, pelas mesmas e más razões que justificam a cegueira e a surdez recorrentes. E vivem esses afortunados que a Lei não alcança, a fazer coro aos que se esforçam por tornar pior a vida dos seus contemporâneos, coestaduanos ou não, como no caso do polo industrial aqui instalado. Qualquer profissional minimamente informado sobre o processo de desenvolvimento e as respostas que têm sido tentadas para assegura-lo teria sido capaz de antever as dificuldades enfrentadas novamente pela economia amazonense. Muitos chamavam a atenção para o que adviria, não porque dispusessem de alguma bola de cristal de alto poder divinatório. Menos, ainda, porque apostassem no cassino das ilusões. A muitos eu dizia não sem certo incômodo, pois de amigos se tratava, que o futuro responderia ao entusiasmo e o fervor com que defendiam os negócios propiciados pelo Decreto-Lei nº 288, de 28 de fevereiro de 1967, com a condição de empregados dos ádvenas. Quando não fossem, como a maioria, simplesmente alijados de benefícios graúdos, todos eles reservados aos que sempre nos considerariam provincianos capazes de se deixar enganar. Estamos, mais uma vez, assistindo a espetáculo que parece constituir realidade insuperável. Talvez o que alguns consideram ser o fado do Estado do Amazonas e sua gente. A História, esse carrasco alheio aos sentimentos menores e atento à sentença poética de Pessoa, não perdoa quem tem a alma pequena. Quando nem alma há, pior ainda.

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