A morte - e a morte de um

Faz tempo, refletir sobre a morte me fez viver melhor. Aproveitar da vida o que nela favorece o crescimento pessoal e faz dos erros não menos que excepcional oportunidade de aprender. Daí acreditar ser a vida de todos constituída de vitórias e de lições, não derrotas. O juízo feito dos eventos desfavoráveis, portanto, depende de cada um. Prefiro vê-los assim. Outros, passarão o tempo que lhes restar a lamentar os fracassos. Nem foi Guimarães Rosa quem deixou marcada primeiro em mim a perfeita e irrecusável sentença: viver é perigoso. Se bem me lembro, veio nas páginas de As intermitências da morte (José Saramago) o momento de inflexão. Igualmente provocativo da reflexão. Penso nisso agora, ao testemunhar algo surpreendido a reação do pessoal de televisão à morte inesperada de um ator cuja fisionomia pessoal frequenta as telas nestes dias mais do que apareceu durante todos os seus 47 anos de vida. Tom Veiga, escondido na figura de um papagaio, saiu de cena antes tão pouco frequentada, porque morreu. Na verdade, passou a ocupar a tela de nossos televisores, depois que o rompimento de um aneurisma o levou definitivamente da sociedade humana. Este aglomerado disforme, em grande medida amoral, em igual proporção perverso, não menos individualmente voltado à contemplação exclusiva e por tempo integral do próprio umbigo. Se há sinceridade no que dizem os colegas, amigos e interlocutores de Tom (e acredito que há), por mais de duas décadas a ave símbolo da verve nacional ocultava uma pessoa do bem, como se diz hoje, momento exigente da dispensa do plural. O talento, a criatividade, a inteligência, a lealdade e tantos outros bons sentimentos do Louro José anulam eventuais e, pode-se crer, veniais vícios que como ser humano ele trazia consigo. Nada diferente de todos os demais seres humanos. Com vantagens, no caso dele, resultantes da superioridade das virtudes por todos apontadas. Seria de bom tom, diante da repercussão e da dor sentida porque o Louro José abandona o cenário onde a tragicomédia da vida de todos se apresenta, ter sempre presente o fenômeno da morte. Não pela dor e pela sensação de perda que ela sempre nos imporá, mas pelas lições que sua ocorrência deixa aos sobreviventes. Melhor aproveita-las ainda vivos.

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