A gravidade do momento

Sou dos que testemunharam a queda de um Presidente constitucionalmente eleito, para inaugurar longo período ditatorial. O pretexto utilizado para derrubar João Marques Belchior Goulart não foi outro: o apoio à indisciplina nas Forças Armadas. O estopim, a presença de Goulart em reunião de praças daquela força e a ação do quinta-coluna cabo Anselmo. O eleito para a vice-Presidência, quando o Brasil escolheu Jânio Quadros para o primeiro posto não presidiu ato político público, em companhia de militares. O pecado de Jango, conforme a História comprova em registros irrespondíveis, foi a intenção de levar a termo seu programa de reformas de base. Dali em diante, iniciou-se retrocesso que, interrompido por cerca de 30 anos, volta com todo vigor. Não, é óbvio, para recolocar o País no processo de desenvolvimento, mesmo integrado ao sistema capitalista. Isto não basta aos autoritários, nenhum deles descrente ou hostil aos métodos que se pensava eliminados de nossa convivência democrática. Assim, o brado tortura nunca mais! perde o sentido e ganha ares de infeliz regeneração. Pensava-se - eu era um deles - que ao Exército Brasileiro restava um mínimo de respeito (nem digo apego, por exorbitante) à democracia. E, se não fosse esse o sentimento, um pouco de amor próprio, aquela pulsão latente que não permite às pessoas e às instituições verem-se atraídas para campanhas menores, nenhuma delas correspondente aos valores proclamados. Enganei-me. É assim que podemos avaliar conduta do Alto Comando, transformado em dócil servidor de um ex-subordinado, cuja fama se fez graças à ofensa cometida contra a instituição. O ato de terrorismo pelo qual o atual Presidente da República foi eliminado aparenta a catapulta que o tornou Presidente e gera a suspeita de que todos os antigos e atuais camaradas se renderam a ele. Resta saber a quê preço foi firmada a rendição. É certo que alguns já o sabem.

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