A gota d'água

Enfim, o copo ficou cheio. Desde o início dos depoimentos prestados por convidados ou convocados à presença dos membros da CPI da covid-19, a mentira tem sio o prato de resistência. Nunca deixou de estar à mesa, fosse qual fosse a condição do depoente, dentre as alternativas do convite ou da convocação. Buscava-se a verdade, admitindo candidamente o exercício da mais deslavada desfaçatez. Houve momentos em que as prerrogativas dos membros, do Presidente em especial, da Comissão, inspiraram pedidos de prisão para algum depoente. Homem cordial, o brasileiro não se desveste dessa máscara, mesmo quando a realidade recomenda tira-la do rosto. O que não é o caso do momento, exceção feita à proteção contra a pandemia. Até que ontem o senador Omar Aziz sentiu engulhos. Talvez lhe tenha dado ímpetos de vômito, como tem ocorrido com aqueles nos quais ainda resta algo do oásis de honra a que aludia meu professor de Direito Penal, Aldebaro Cavaleiro de Macedo Klautau, na UFPA. E foi dada voz de prisão ao funcionário do Ministério da Saúde Roberto Ferreira Dias. Logo os sentimentos humanitários fizeram prevalecer a generosidade, ao ponto de levar alguns senadores ao esquecimento dos mortos que se aproximam dos 600 mil. Certamente, não é objetivo prioritário da CPI trancafiar ninguém, mas apurar a verdade, esta virtude tão proclamada quanto ausente. Ao Presidente da Comissão, pode-se admitir, estaria mais satisfeito se nada justificasse a ordem de prisão. Não a teria dado, houvesse o esclarecimento dos fatos que as provas não deixam esconder. Importa pouco se, amanhã, o pagamento da fiança puser o preso em liberdade. Os que se preparam para enfrentar os senadores a partir de hoje, dificilmente se sentirão a vontade para mentir. E acabarão por tornar inócuo o esforço dos senadores que se têm comportado como advogados dos depoentes. Se de grão em grão a galinha enche o papo, de mentira em mentira a cabeça chega à irritação. Há o dia em que a gota extravasa do copo. Quem sabe assim a sede de verdade será saciada?

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