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A DIALÉTICA DO INDIVÍDUO SOCIAL

José Alcimar de Oliveira*


Todas as coisas se dissipam onde tiveram a sua gênese, conforme a necessidade; pois pagam umas às outras castigo e expiação pela injustiça, conforme a determinação do tempo (Anaximandro de Mileto).



               01. Não tenho filiação partidária, não sou petista nem lulista. Caminho com a esquerda classista, aquela imune ao escrúpulo de se definir como esquerda. Minha frátria, com a vênia de Caetano, é a Filosofia, da cepa do Materialismo Histórico e Dialético, categorizada por Sartre como a "Filosofia insuperável de nosso tempo". Por minha heterodoxia teológica penso acreditar mais em Deus do que propriamente Ele em mim. Não propriamente no Deus que, juntamente com Pátria e Família, encima o tripé ideológico, vazio e tanático, vociferado em púlpitos de venal matriz religiosa, a legitimar baixezas inconfessas. Falar de Deus no cristianismo sem o crivo evangélico do Nazareno, ou deformando sua Boa Nova, é blasfemo e merecedor de condenação nietzscheana. 

               02. Nada do que disse no parágrafo antecedente me impede de reconhecer, e sem incidir em culto ou agravo ad hominem, que há biografias e biografias.  Daqui a 50 anos, em 2075, que biografia caberá ao inominável? E quanto a Lula, como será visto no Brasil e no mundo daqui a 50 anos? Segundo Nietzsche, ver semelhança em tudo é sinal de miopia. De perto e ao longe nenhum animal político é igual. Lula é o único brasileiro a se eleger três vezes presidente e com possibilidade de ser eleito para um quarto mandato. No período contemporâneo quantas e quantos, por via eleitoral e sobreviventes da miséria produzida pelo capital assassino, tal é a história de Lula, chegaram à presidência de uma nação apenas com escolaridade fundamental? Lula sucedeu a FHC, o típico homo academicus, cuja sigla nominal o iconoclasta Millôr dizia ser superlativo de PhD. 

               03. Antes de sua tardia e precária alfabetização formal, Lula já havia se doutorado na Universidade da Miséria do Nordeste (Unimino), em meio aos "esfarrapados do mundo", a quem Paulo Freire dedica sua Pedagogia (classista) do oprimido. Cabe perguntar: como estaria o Brasil, neste 2025, diante dos ataques do Império, se o inominável tivesse sido reeleito? Em lugar da formal, porque ainda não materializada, República Federativa do Brasil estaríamos de fato sob o destino político de não ser mais do que um Protetorado Ianque do Atlântico Sul. O lado pior do Brasil, suas estruturas mais impulsivas e repulsivas, sua personalidade autoritária, sua psicologia escravagista, sua misoginia, suas expressões mais preconceituosas, racistas e pervertidas, tudo se desinibiria de vez.     

              04. Lula, é preciso reconhecer, com suas contradições, inclusive as da impossível conciliação de classe, salvou o Brasil em 2022. Se nele votei, não foi para chegar ao paraíso, mas para tirar o Brasil do inferno.  No Brasil as provas materiais da existência do inferno dispensam especulações teológicas, mesmo as mais bem sistematizadas pela tradição tomista. Diz o velho Hegel que a verdade é o todo. E do ponto de vista da razão histórica, da madeira torta de que é feito o ser humano (Kant), a verdade do todo de uma vida jamais estará isenta de contradições. Lula se fez e se construiu desde as mais cruas e adversas contradições sociais, sobretudo a contradição da degradada desigualdade social de sua origem de classe. Lula vem de berço mal nascido. Nada, estrutura social nenhuma, conspirou a seu favor. Lula, como reverso da meritocracia, nasceu marcado para morrer. Sobreviveu a secas e cercas. 

               05. Lula é um paradigma do que significa o papel do indivíduo na história (Plekhanov), do indivíduo coletivo, social, que escapou às cadeias do individualismo burguês e fez o trânsito, desde o cotidiano da vida e da luta, da origem de classe inconsciente de si para a consciência da posição de classe no antagonismo desigual entre burguesia e classe trabalhadora. Dotado de uma forma superior de racionalidade, por Spinoza chamada de inteligência intuitiva, Lula soube conjugar com sabedoria e rara intuição experiência humana e leitura de mundo, sem mediação de escolaridade que não a da vida. A verdadeira Academia do aprendizado de Lula em nada é comensurável à proposta de formação apresentada por Platão em sua Politeia, exclusivamente destinada aos ditos cidadãos bem nascidos. Nascido à margem da cidadania, tornou-se cidadão do mundo desde o mundo dos debaixo.  

06. A Academia do aprendizado de Lula foi a da Escola dos Retirantes da Miséria, bem descrita no Vidas secas do irredento Velho Graça.  Há alguns dias tomei conhecimento, pelas redes ditas sociais, de uma comparação feita por Benjamin Teixeira de Aguiar entre D. Pedro II e Lula, segundo a qual Lula teria “alma de rei” e seria uma “reencarnação de D. Pedro II”. É inegável e reconhecida a inteligência de D. Pedro II, seguramente o mais intelectual entre todos os governantes brasileiros, com uma diferença: enquanto D. Pedro II nasceu vitorioso, com o mundo a seu favor, Lula, por sua origem de classe, já nasceu perdedor e desamparado pelo mundo. Lula se fez indivíduo social contra a sociedade de classes. D. Pedro II teve a sociedade de classes a seu favor e pouco fez contra a infame desigualdade social da qual Lula é o nosso mais ilustre sobrevivente.

               07. A figura de Lula está entre as mais representativas e emblemáticas para a compreensão da dialética do indivíduo social. Lula é o modelo materializado em pessoa das contradições que vertebram a sociedade brasileira. Nenhum governante na história de nossa proclamada e nunca consolidada República resume e encarna de forma tão viva o ser social do povo brasileiro. Lula é uma metamorfose política que escapa a toda previsibilidade acadêmica e pretensão cartesiana de definição clara e distinta do exercício do poder. Sua linguagem, movida a metáforas, carrega a força ontológica da sabedoria popular. À esquerda, ao centro e à direita, sabe como poucos lidar com as contradições de que se reveste seu desempenho político, num país em que a burguesia lesa-nação naturaliza a desigualdade, vampiriza o povo, criminaliza direitos sociais e conspira contra a soberania nacional. Se a esquerda classista (e aí me incluo) não vê nele seu candidato ideal, tampouco tem sido capaz de construir alternativa melhor. De quem é a culpa, se de culpa fosse a questão? Na falta do melhor, sigo com Lula em 2026. 

____________________________________

*Professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas, teólogo heterodoxo e sem cátedra, segundo vice-presidente da ADUA – Seção Sindical e filho do cruzamento dos rios Solimões (em Manacapuru – AM) e Jaguaribe (em Jaguaruana- CE). Em Manaus, agosto de 2025.





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