A CPI da covid-19


Pela primeira vez, acompanhei grande parte da sessão da já chamada CPI da pandemia. Na terça-feira, 18 de maio, pude recolher informações úteis à formulação de juízos sobre os envolvidos, quer depoentes, quer inquisidores e dirigentes da Comissão. Esperava ter razões para destacar o desempenho do ex-sinistro das Relações Exteriores, o desmemoriado Ernesto Araújo. A conveniente perda de memória do discípulo do astrólogo Olavo de Carvalho não me permitiu saber mais dele, tanto ele expôs suas (péssimas e indigentes) ideias nas redes antissociais de que participa, e pronunciamentos nos media. Pude, apenas, testemunhar o crescente embaraço do depoente, à medida em que também crescia a curiosidade dos senadores. De natural, presa do que chamo gagueira mental, o deplorável membro do Itamaraty (onde antes só havia diplomatas)mostrou acentuar-se tal característica, certamente comprometendo a capacidade de entendimento e aprendizado. A postura do ex-chanceler, ao menos, permitiu-me concluir existirem sábios analfabetos, tanto quanto doutores desprovidos do mínimo de sabedoria. Por isso, achei mais interessantes outros protagonistas, sem dar atenção à sua posição ideológica ou ao script que os orienta. Neste particular aspecto, corro o risco de ser acusado de admiração pela retórica. Esta, confesso, faz jus à minha interessada, dedicada e bem-sucedida passagem por um curso superior de Direito. Serve, ainda, para avaliar quão bem se saiu o advogado de defesa senador Marcos Rogério , quem sabe excelente defensor no Tribunal do Júri. Pode o réu, neste tipo de julgamento, não obter a absolvição do acusado, mas não se pode negar seu empenho em levar os jurados a beneficiar seu cliente. O senador-defensor fez bem este papel. Depois, Kátia Abreu repetiu o que tenho testemunhado vir sobretudo das mulheres, indignação que parece vinda de dentro, não atada à máscara que não protege – da curiosidade alheia, nem da covid-19. Tasso Jereissati foi outro destaque, pela brevidade condutora de tanta contundência, ao manifestar-se. De Eduardo Girão, outro dos advogados de defesa, pela pobreza – em forma e substância – das palavras, e pela mentira em que o flagrou o colega Oto Alencar, cabe substituir o qualificativo parlamentar. Pra lamentar foi sua intervenção. O relator Renan Calheiros e o senador Humberto Costa, e mesmo o Presidente da CPI Omar Aziz cumpriram o papel que todos esperam deles e de tantos outros colegas. Nesse papel, mixagem de moderadores e torquemadas, cerca-os permanentemente o risco da tendenciosidade. Se se deixarem dominar por ela, o trabalho de que estão incumbidos terá o mesmo destino dado ao papelório produzido por Sérgio Moro e a milícia de justiceiros que o seguia. Não assisti à sessão inteira, mas o suficiente para antever o espetáculo da quarta-feira. Dificilmente o depoente repetirá o voto de obediência que se conhece, mas não se esperem demonstrações de valentia. A dor ensina a gemer.

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