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A casa e a praça

Desafio algum brasileiro da minha geração que desconheça o aforismo costume de casa se leva à praça. Talvez alguns vejam equivalência ou versões diferentes entre ele e outros, de que poucos parecem lembrar-se. Refiro-me à expressão o uso do cachimbo torna a boca torta. Em ambos, o vínculo entre certos hábitos e sua repetição, além da exposição a que estão sujeitos. O que leva para o ambiente externo o que tem o hábito de praticar em ambiente privado diz respeito ao primeiro dos agentes. Outro o que, pelo uso reiterado de determinado objeto, conforma o órgão anatômico que o põe em funcionamento. A lembrança desses ditos mais que populares ocorre quando os vejo aplicados a fatos recentes, não obstante o quase esquecimento do que diz a sabedoria popular. A ameaça de disparar um tiro contra o triPresidente Lula só pode surpreender os cegos, os desonestos ou os fanáticos. Menos pelo estímulo do desgoverno anterior, mas pelas ações resultantes desse estímulo. A bala, nos ambientes frequentados ou controlados pelos desprovidos de argumento ou força moral, é solução sempre à mão. Ainda mais se frustrada a tentativa de alterar por um golpe de estado a Constituição em vigor. Os brasileiros ainda estão por conhecer a verdade sobre o suposto atentado de Juiz de Fora, e o costume dos que se dizem vítimas dele vem à praça. Relacionar as ações e as pretensões de eliminar adversários à bala é tarefa que preencheria inúmeras laudas. Não seria diferente, depois que o maior incitador desse tipo de solução declarou seu desejo de metralhar pelo menos 30 mil. Algo absolutamente cabível, para quem confessou nada ter aprendido durante sua vida, se não matar. Nem se levem em conta os 200 mil, entre mulheres, homens e crianças, porque neste caso a covid-19 deu certa contribuição para o trágico resultado. Enquanto não forem suficientemente esclarecidas, dentre tantas outras, as mortes de Marielle Franco e Anderson Gomes, os proprietários e hóspedes da pensão de Juiz de fora e Adriano da Nóbrega, ainda veremos bocas tortas e costumes de casa chegarem à praça.

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