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A bofetada de Galileo

ADHEMAR BAHADIAN*


Até hoje me recordo da peça teatral “Galileo Galilei”, que assisti nos anos 60 do século passado, com Fauzi Arap, no Teatro Opinião.

Nela, em determinado momento, o personagem de Fauzi Arap, ao ser informado de que, diante de uma bofetada, o homem justo deveria responder oferecendo a outra face do rosto, num dos trechos mais fortes da dramaturgia, retruca: “Nada disto. Diante de uma bofetada deve-se reagir com uma montanha de bofetadas, com força muito maior do que a recebida” (a citação é de memória e o original é muito mais impactante, com a voz e a gesticulação de Fauzi).

Foi esta a lembrança que me veio ao ver, neste domingo na Avenida Paulista, a bandeira brasileira desfilar nos braços do povo em resposta ao espetáculo recente quando, na mesma avenida, se expôs o descalabro de se homenagear, como se colônia fossemos, a bandeira dos Estados Unidos da América.

Enganam-se os que atribuem a um movimento da esquerda a reação do povo brasileiro, cansado dos despautérios, cinismo e sem-vergonhice de parcela considerável da Câmara dos Deputados. Uma bofetada de Galileo, definitiva, máscula, irritada e sobretudo de reafirmação do povo brasileiro de sua soberania e, sobretudo, de sua dignidade.

A esta homenagem certamente se seguirá, nas eleições legislativas de 2026, um tsunami de rejeição pelo voto de tantas e tão abusivas reações covardes como a PEC da bandidagem e da Anistia.

O povo tomou a si a decisão de dar um “basta" a parlamentares que desonram o mandato popular ao se mostrarem lenientes com propostas que nos transformam numa republiqueta de servis servidores do domínio estrangeiro e, pior ainda, contrários ao respeito à Constituição de 1988, tratando-a como se fosse um pano de lixo.

Chega, Basta, não somos parvos nem idiotas para aceitarmos manobras pseudamente jurídicas tão ou mais vergonhosas que as emendas parlamentares e as barganhas de bastidores de procurar sabotar medidas de interesse popular, como as referentes à eliminação de imposto de renda para assalariados.

Todas essas medidas se revelam nitidamente como de natureza espúria e entreguista, e pretendem transformar o Brasil num boneco de piche do Trumpismo, onde só se beneficiam os super-ricos, embora com uma ode canhestra em defesa da Democracia.

Não há espaço no Congresso para defensores desta nova forma de recolonização do Brasil. Não há temor do povo brasileiro com as ameaças ao nosso desenvolvimento econômico e social.

Este domingo, 21 de setembro, certamente marcará o renascimento do povo brasileiro como guardião do nosso desenvolvimento econômico e social nos termos explícitos da Constituição brasileira. O povo brasileiro se revela constitucionalista até a medula, e reclama de nossas autoridades a apresentação de projetos e programas desenvolvimentistas. Sobre este último ponto, é de importância que se respeite a memória de JK que vem sendo citado por quem não parece respeitar que o maior legado que nos deixou JK foi o respeito à Democracia e aos direitos humanos.

Legado enxovalhado pela Ditadura dos anos 60 - e não apenas por ela -, inclusive com o cruel exílio politico imposto a JK.

Portanto, dobre a língua e dobre a própria coluna dorsal, quando dele falar, governador.

Esta semana, teremos ainda o discurso de Lula nesta terça-feira na ONU. Olhos e ouvidos nele. O Brasil tem uma mensagem de paz e uma convocação à ordem internacional e à paz.

E ASSIM SEGUIREMOS.

___________________________________

*Adhemar Bahadian é embaixador aposentado.

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