Master class de política: ou das cópulas inter pocula da classe dominante
- Professor Seráfico

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Marcelo Seráfico e José Alcimar*
Nossos burgueses, não contentes em ter à sua disposição as mulheres e as filhas dos seus proletários, para não falar sequer da prostituição oficial, encontram um singular prazer em seduzir as esposas uns dos outros (Marx e Engels, no Manifesto Comunista).
Toffoli, o Ministro, está nu!!! A imagem, que já era grotesca com o batom na cueca, agora é nauseante. É de se esperar que a operação da PF que investiga as peripécias financeiras de Vorcaro, capo do Banco Master, siga trajetória distinta da Lava-Jato, que, ao naufragar nas ilicitudes processuais graves do Moro de Maringá e sua trupe de procuradores, permitiu que réus e culpados confessos se livrassem das penas. É imenso, senão intransponível, o desafio de ver prevalecer o imperativo da justiça quando o direito não é mais que um aparato do Estado burguês. Ao se tratar de autopreservação não há classe mais ecológica do que a dominante.
O lavajatismo levou ao paroxismo o poder desse aparato, bem dosado e ao ritmo dos interesses das classes dominantes, no mais espetacular e mediático consórcio cupular armado nas altas esferas do poder, entre cópulas e inter pocula. Sob a lógica da presunção da culpa bastava arquitetar a acusação para dar materialidade à prova. A Lava-Jato mostrou que o combate à criminalidade não pode ser feito cometendo-se crimes; ao contrário, fazendo assim, corrompe-se a possibilidade de justiça, virtuais criminosos se tornam vítimas e os "agentes da lei" passam à condição de réus.
Dada sua "complexidade", os golpes contra o patrimônio público envolvem poderes mil em todas as instâncias. A "cabeça" do monstro da pilhagem é de "financistas" e CEOs (numa tradução livre, os Cupinchas Executivos das Oligarquias), termos da novilíngua mediática tradicional, velha e nova, para qualificar os gângsters e salteadores do século XXI; o corpo, as patas e o rabo da besta, porém, compõem-se da matéria que preenche os três poderes da república, executivo, legislativo e judiciário.
Já não se trata, nesses tempos de sonolência da razão, da instauração do reino da venalidade universal e cada vez mais sombrios (para aqui e pela ordem nominar Goya, Marx e Arendt) de explicitar a força do crime organizado no Estado, mas antes de objetivar o quanto há de Estado no crime organizado. O Brasil é um laboratório fecundo no qual germina, cresce e se enraíza essa trama em todos os níveis de poder. Prefeitos, governadores e presidentes; vereadores, deputados e senadores forjam as leis cujo cumprimento se destina a tranquilizar “o mercado", assim como os projetos que alimentam sua sede de acumulação.
Órgãos de "controle" também são essenciais, pois se não forem incluídos no cálculo econômico racional, podem impedir, no nascedouro, a prosperidade do "negócio". Siglas as mais variadas (BC, TCU, CADE, CVM etc.) com seus tecnocratas bem formados, precisam ser mantidos inertes, de modo a não constranger o "instinto animal" do mercado. Tudo deve concorrer para manter a vitalidade (venal) do mercado. Nada deve comprometer sua tranquilidade, mesmo que à custa da crescente vulnerabilidade social da classe trabalhadora.
A traduzir em redes nacionais, regionais e locais os urros nervosos da besta se põem os “analistas”, demiurgos profanos e religiosos que falam em seu nome em todos os rincões e plataformas a que possa chegar a palavra. E do verbo nasce o "viés" que recria a realidade como “notícia” ou “análise”. Sacerdotes do “mercado”, comumente devotam suas orações e ações a negócios sobre os quais simulam falar com objetividade, isenção e moralidade. Já há muito a economia virou uma ciência sagrada e para ela migraram os dogmas de religiosa extração. O Brasil deve animar o genial Walter Benjamin a retomar o seu inacabado e sempre atual Capitalismo como Religião.
Todos participam da divisão social do trabalho venal com vistas a fortalecer os fundamentos de uma classe à qual só interessa a acumulação de capital; cada um com uma função particular, com seu objetivo específico, mas todos irmanados em um objetivo seu, geral-de-classe: o butim do patrimônio público e a exploração da classe trabalhadora. Sociologicamente, casos como o do Banco Master ajudam a entender como age a classe dominante e quem faz parte ou colabora com ela. O Banco Master é o mais didático texto (ou fio heurístico) para decifrar as regras e jogar luz nos meandros quase insondáveis que estruturam a gramática do capital nesse país oligocrata.
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*Professores dos Departamentos de Ciências Sociais e de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas. Desde Manaus, AM, em fevereiro de 2026.

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