Vida engavetada

Já não constitui novidade para a maioria da população o desespero do Presidente da República e seu esforço para dificultar o funcionamento da CPI da covid-19. Nem se trata apenas de impedir o conhecimento público e provado das inúmeras irregularidades e ilícitos praticados ao longo dos últimos (e infaustos) anos de nossa História recente. O cenário jamais apresentou-se tão trágico, mesmo durante a II Grande Guerra. A gripe maldosamente chamada espanhola também não tinha a envolvê-la circunstâncias tão atrozes quanto as que hoje experimenta a população brasileira. Agora, não é apenas a mortandade decorrente da infecção pelo vírus assassino que atormenta a vida de todos. Juntam-se a ela a ignorância, a perversidade e a cumplicidade, sob a égide da ganância e de propósitos desdenhosos dos mais comezinhos preceitos humanos, políticos e morais gerados ao longo dos séculos. Como Herodes, Nero, Átila, Genghis Khan, Jim Jones recapeados, contam-se no palco dos acontecimentos, inúmeros agentes de Caronte, mesmo sem valquírias pressurosas e prestativas, empenhados em provocar a abertura de mais covas e promover a condenação de boa parte de seus contemporâneos a preenche-las. Pensava-se que o ataque hitleriano constituíra o último dos holocaustos. Menos ainda se poderia imaginar que descendentes de muitos dos sacrificados nos campos de extermínio nazistas emprestariam a mão um dia súplice à empreitada que hoje se vê prosperar e manter-se no País. A CPI da pandemia, como se a tem chamado, é apenas parte do trabalho de que o Congresso se ocupará. Será tarefa cumprida pelo meio, se o impeachment brecado pelo ex-Presidente da Câmara Rodrigo Maia não for desengavetado. Porque engavetada também está a vida de milhões de seres humanos sobrevivos ao holocausto à moda brasileira, como se as 400 mil mortes esperadas para breve nada significassem para os que mandam. E - o que é pior - pensam continuar mandando, per secula seculorum...

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