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Vencedor em toda luta

Conheci-o, eu ainda usando calças curtas. A frequência com que ia à nossa casa, coincidente com as safras de abios e sapotilhas. Chamadas sapotis, em alguns lugares deste imenso país. Nosso quintal reunia algumas árvores dessas duas frutas, das melhores que saboreávamos naquele pedaço de vida. Mulato, conversador, simpático, aquele homem que não teria chegado aos 30 anos, colhia os frutos com o cuidado que punha em outros afazeres. Se as tábuas de acapu e pau-amarelo (iguais às que assoalham o castelo de Sissi, em Shönbrunn, Suíça), beneficiavam-se do brilho que seu trabalho impecável lhes atribuía, não era menos elogiável o resultado da colheita. Divididos em partes iguais, abios e sapotilhas serviam à sobremesa da família. A parte que o apanhador levava consigo era transformada em dinheiro. Este entrava no orçamento doméstico do diligente e modesto tocador de gaita. Porque isso, também ele era. Passados alguns anos, para nós tanto quanto para ele, a mais velha de minhas irmãs o reencontrou. Sem abios, sem sapotilhas, nem escovão e cera de carnaúba. Nem era de acapu- e pau-amarelo a sala em que conversaram. Assessora do Secretário de Cultura do Pará, Vitória reencontrava o gaitista exitoso desde o começo de sua carreira musical. Ontem, lendo jornal de Belém do Pará, palco da colheita e do reencontro, sei que João Laurentino da Silva morreu. Mestre e musicista, Laurentino desapareceu no sábado, 21, dias antes de completar 99 anos. Nascido em Ponta de Pedras e criado em Belém, autodidata e considerado o mais antigo roqueiro do Brasil, o artista foi de boxeador a mecânico de aviação, passando por ajudante de pedreiro. Dezenas de músicas dançantes, como o hit de que se orgulhava, Lourinha Americana, são de sua autoria. Justas, portanto, todas as homenagens que vêm sendo prestadas a um colhedor de êxitos. Nos quintais, nos salões, no ringue em outros mais lugares em que se luta pela Vida.

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