Vítima e solidariedade


É muito conhecida certa frase lembrada em momentos de crise como a que vivemos hoje: as esquerdas brasileiras só sabem unir-se no cárcere. Ainda que a sentença destaque certa tendência experimentada na vida real, falta muito para ser respondida à altura e, por isso, desmentida. Quanto à correspondência com a vida como ela é, basta dizer como o infortúnio é propício ao aprendizado. Isso, óbvio, quando há a vontade de aprender e a inteligência não se faz madrasta, usurária ou inexistente. A fortuna, ao contrário, exacerba o hedonismo e o narcisismo, posto dentro de cada indivíduo em doses e combinações desiguais. Em composto ao qual não faltam, também em doses variadas, o ódio, a preguiça mental, a desonestidade...E por aí vai.

Em alguns dos protagonistas da atual cena política nacional, pequenos episódios acabam por apagar atos meritórios, disso resultando um – chamemos assim – balanço desfavorável. A imagem construída ao longo de anos, às vezes décadas, baseada em interesses de que só se conheciam pedaços incompletos, atua sobre essas personalidades com força irredutível. Tal força parece impulsiona-las a cometimentos temerário, de que resultam a desmoralização e o desdém coletivo. Ao mesmo tempo em que se lamenta pelo que se prejudica mais por ação própria que dos inimigos, sente-se quanto nossa boa vontade é lograda.

A recusa de Lula em participar da mobilização que parte das esquerdas tenta opor à facistização do País, se comparada a acontecimentos ainda recentes, válida a frase Inicial. Quando preso à revelia dos preceitos constitucionais, o ex-Presidente da República desfrutava de prestígio e podia contar, como contou, com o apoio (que não pode ser confundido com o aplauso) dos que estavam em liberdade. Muitas pessoas foram às ruas, sem que sequer houvesse razão diferente da que a sabedoria popular consagra: quando a barba do vizinho arde, ponho a minha de molho. Ou seja, defendo o outro vitimado pelo arbítrio porque sou potencial vítima da ameaça que sobre mim também paira. Ou seja, movem-me certa insegurança e acentuado instinto de conservação. Ainda assim, gera-se, por via indireta, a solidariedade que tem movido a sociedade humana. Ora mais, ora menos, mas sempre necessária, é a solidariedade a argamassa que põe milhares de pessoas nas ruas de cidades norte-americanas para protestar pela falta de ar. Sim, é a dificuldade de respirar manifesta na já célebre exclamação de George Floyd que afeta os negros daquela nação. Sabem todos eles o que os espera, se se entregarem à indiferença diante da agressão sofrida por seu irmão de cor. Sabendo também todos não ter sido Floyd o primeiro. Por que imaginar, gratuitamente, que será o último?

Essa a lição a ser aprendida. Não nos podemos unir quando nós faltará o que ainda resto tá de liberdade. Ampliar a liberdade, torná-la sempre e sempre maior será o de mais importante que a sociedade pode fazer, como já o percebem pessoas brancas, de olhos azuis e cabelos louros, nos Estados Unidos da América do Norte, da Europa, mundo afora.

Por isso, Luìs Inácio Lula da Silva desserve à democracia, menos pelos malfeitos de que, justa ou injustamente, tem sido acusado. Se a Constituição foi agredida para prendê-lo, o agressor de agora é ele. A vítima, as esperanças que ele mesmo um dia alimentou.

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