Vírus revolucionário


O que Karl Marx e os sindicatos não conseguiram ao longo de mais de século e meio, um vírus alcançou: a paralisação de todas as atividades, à exceção de pouquíssimas delas. Vivemos nestes dias de pandemia situação que muitos estudiosos consideram a iminência de uma revolução social, ou uma guerra civil. Avessos a soluções que levam ao conflito aberto, ostensivo, sem máscaras, temos dado preferência aos acordos escondidos, aos acertos ocultos, aos arranjos espúrios. Não é que sejamos hostis à violência ou que tragamos nas mentes e corações ideias e valores generosos ou tolerantes. Ao contrário, parecemos sempre inclinados a adotar a hipocrisia como bússola da vida e a violação do que resta de humano como o remédio eficaz para os males de que somos os únicos produtores.

Por isso, recusamo-nos à explicitação ostensiva de nosso ódio e de nossa ferocidade e matamos nas masmorras, nos porões onde se esfarelam os resquícios do que inadvertidamente rotulamos humano. Ao mesmo tempo em que nossa insensibilidade finge ignorar o resultado da desigualdade crescente, responsável pela violência cotidiana. Criativos, contribuímos por nossa ação ou omissão com o morticínio de que os registros dos acidentes, nas ruas e no ambiente de trabalho, são a contundente ilustração. Deixo de fora a fome, por sua realidade estridente, como as doenças evitáveis etc.etc.

Finge-se, igualmente, ignorar a mais perversa exploração que o capital promove, neste pedaço da América do Sul. Ao ponto de colocar com crueza a que nenhum revolucionário um dia chegou o dilema assustador: o lucro ou a vida. Desde que, óbvio, a vida em jogo esteja apenas de um dos lados do muro. O lucro, também. A isso os estudiosos chamam luta de classes. Mas o vírus nada sabe dessa matéria, e sua índole sorrateira, escondida, acovardada, não é criteriosa nas suas escolhas. Infecta brancos e negros, altos e baixos, gordos e magros, pobres e ricos. Os que trabalham, de um lado; os que lucram, do outro. É que o vírus não distingue muros.

O vírus também não sabe quem perde mais, quando homens cotidianamente suarentos são forçados à ausência dos seus postos de trabalho. Talvez esses mesmos seres humanos nunca se tenham dado conta disso. Mas do outro lado do muro todos sabem onde estão os perdedores, porque nunca perderam e não admitem perder. Não é obra do acaso, nem fruto da fortuna o patrimônio que construíram, enquanto os explorados só fazem empobrecer. Cada dia mais, porque é diário o crescimento da riqueza dos outros.

Isso explica, em parte, porque o capital e sua religião, o mercado, vão às ruas, arrastando consigo homens cujo suor é inesgotável, para encerrar a greve geral involuntária, virótica. Um dia os explorados refletirão sobre isso. E dispensarão os bons serviços do vírus indesejável.

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