UMA ENTREVISTA VISTA POR INTEIRO


A entrevista coletiva do Presidente da República e alguns de seus ministros, na tarde desta quarta-feira, faria mais bem aos brasileiros se o Chefe do Poder Executivo fosse dispensado de participação. Se a presença de Jair Bolsonaro serviu para alguma coisa, terá sido para mostrar onde está o mais grave problema da república – nele mesmo.

Enquanto os auxiliares presidenciais tentaram mostrar o que vem sendo feito para combater o coronavírus e os efeitos nocivos sobre a população, outra coisa não fez o ex-capitão que manter o clima de campanha eleitoral, sua ideia fixa à falta de qualquer outra ideia.

A participação dos demais entrevistados não chegou a ser homogênea, tão díspares foram os pronunciamentos, por exemplo, de Luiz Henrique Mandetta e de Pauo Guedes. O primeiro demonstrou segurança e justificou satisfatoriamente a conduta do Ministério da Saúde, diante da pandemia; já o titular da Economia tentou atribuir a terceiros a crise econômica por que passamos, talvez esquecido de que somente em dezembro a epidemia oriunda do Oriente se iniciou. E chegou ao Brasil dois meses depois.

Aos demais Ministros correspondeu mostrar o papel acessório às ações do Ministério da Saúde, desempenhado por suas respectivas pastas. O caráter adjutório foi razão inclusive para economizarem palavras, em especial quando respondiam às perguntas dos jornalistas. A exceção a esse comportamento econômico e respeitoso foi o próprio Paulo Guedes, interessado em desfazer a impressão de que o Posto Ypiranga perdeu muito de sua eficiência e da confiança dos que o cercavam na mesa composta, tanto quanto no seio da população.

Já da parte do Presidente, nenhuma surpresa veio. Por isso, com todas as palavras, sílabas e letras uma comentarista da GloboNews disse, logo após o espetáculo protagonizado por homens de máscaras: mais uma vez o Presidente mentiu. Referia-se Natuza Nery à explicação dada por ele ao lamentável encontro e confraternização com os incensadores do mito, à porta do Palácio da Alvorada. A jornalista não omitiu, como reforço ao juízo que faz do ex-capitão, o episódio em que ele, também com todas as letras, sílabas e palavras, convocou seguidores para louvá-lo em manifestação pública. Ou seja, tudo quanto o seu Ministro da Saúde critica, condena e se esforça por evitar.

Não faltaram, mais uma vez, insinuações e agressões à imprensa, que talvez o voluntarioso ocupante do Planalto pensava neutralizar com rasgados elogios aos Presidentes dos outros poderes. Rodrigo Maia, David Alcolumbre e José Antônio Toffolli talvez tenham mil razões para gargalhar. A não ser que sua apreciação coincida com o que pensa a comentarista da GloboNews a respeito do Presidente.

A impressão que os telespectadores devem ter colhido, encerrada a entrevista, tem muita probabilidade de levar a conclusões que não melhoram a imagem do Chefe do Poder Executivo, nem amenizam a conduta inadequada que marca suas aparições. Na porta do Palácio onde mora ou onde quer que se apresente. Uma dessas conclusões é a de que se sente enormemente diminuído e ressabiado com o crescente prestígio de seu Ministro da Saúde. Por mais que Mandetta tente ignorar ou reduzir o comportamento deletério do chefe, a contradição é óbvia. De nada terá servido, então, o esforço por esconder um fato que a sociedade deixou de ignorar. E mostrar indiferença diante dele. Debite-se tudo, porém, ao gostinho doce do poder.

As reiteradas juras de amor pela democracia também são outro ponto em que se pode sustentar o juízo de Natuza Nery. Quem as ouvisse, sem nunca antes ter ouvido e visto algo pronunciado ou executado por Jair Bolsonaro, diria assistir a uma réplica de Winston Churchill, tanto pelo que ele dizia da democracia, quanto pelo apelo ao “sangue, suor e lágrimas” pedido ao povo inglês. Neste caso, a Terra estava envolvida em uma guerra, talvez reduzida em suas proporções, se comparada com a que o Ministro da Defesa crê estar em curso no Brasil. Falo de coisas vistas e ouvidas.

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