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UM PLANETA TERRA PARA TODOS, COM VIDA DIGNA E RESPEITO À CULTURA DOS POVOS*

Certa vez, em Brasília, tomando uma gelada no Beirute, perguntei a um artesão que vendia seu trabalho no bar: você é de onde? Ele respondeu: sou terráqueo.

Adorei e fiquei a refletir.

Somos todos do mesmo planeta. A terra é nossa morada. A divisão geofísica é coisa inventada para delimitar poder e dominação. Kafka viaja bem sobre isto em "A Muralha da China".

Faço esta introdução para responder àqueles que procuram reduzir o ser humano a um espaço limitado, vendo-o como eterno prisioneiro dentro de uma célula ou entre grades imaginárias. Na verdade, quem pensa assim é que está preso, confinado na sua mesquinharia existencial.

Não importa se você é cearense, venezuelano, haitiano, japonês ou alemão e mora em Manaus. Somos todos seres humanos que habitam um mesmo planeta. O espaço não nos faz mais nem menos seres humanos, pois podemos construí-lo para o nosso bem-estar.

A xenofobia é mais um dos preconceitos que geram violência, tanto física quanto simbólica. É desumana, mesquinha, excludente. Um ser humano com um mínimo de espírito de solidariedade jamais será um xenófobo.

Hoje, a pauta ambiental de defesa do planeta não pode se limitar à manutenção da estrutura física onde vivemos. É preciso discutir quais relações queremos ter dentro do globo terrestre, porque a destruição do meio ambiente e de vidas não é metafísica. Ela é real e tem seus sujeitos coletivos.

A relações que existem hoje no planeta terra, seja na divisão internacional do trabalho, no antagonismo de classes ou no combate e enterro do humanismo excluem as possibilidades de vida digna ao ser humano, na sua grande e esmagadora maioria.

É preciso que o debate ambiental incorpore os problemas estruturais da humanidade. Planeta pra quem? Até agora o povo trabalhador produz para gerar meia dúzia de bilionários, que ao acumularem riquezas e espalhados por todo planeta pisam nos cadáveres de crianças mortas pela fome.

Temos 108,4 milhões de pessoas deslocadas à força em todo o mundo, seja por questões geopolíticas ou por fuga das condições indignas onde vivem.

Repito: não basta defender o planeta. Temos que debater Planeta Pra Quem? O debate ambiental deve sair da histeria preservacionista e enfrentar as questões sérias da humanidade.

Só salvaremos o planeta se começarmos a salvar vidas e respeitarmos os espaços geográficos como espaço de vidas. O planeta deve servir como ambiente das mais diversas culturas, suas terras e águas devem ser respeitadas como bens coletivos e não como domínio do capital e de seus detentores.

Um planeta para todos.

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* Lúcio Carril

Sociólogo

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