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Triste coroação de um processo

Eis para que servem os decretos que impõem sigilo a ações ilícitas e documentos que as registram. Compare-se o tempo que decorreu desde que Marielle Franco foi assassinada com o que bastou para descobrir os matadores do indigenista Bruno Pereira e o jornalista britânico Dom Phillips. No primeiro caso, a aparente proximidade dos mandantes e executores da vereadora fluminense com o poder ainda mantém pesado véu sobre o caso. Passados mais de quatro anos, ainda não se têm ao certo nem a autoria exata, nem a identidade dos interessados na morte dela, presumíveis mandantes. À medida em que as investigações avançavam, mais próxima pareceu a convivência de poderosos com os suspeitos. Não se sabe, porém, quais as chances de algo mais ser descoberto, tanto o empenho dos que detêm o poder em obstaculizar a ação das autoridades policiais e judiciárias. Ainda que existente, foi insuficiente a repercussão internacional daquele duplo assassinato, de que foram vítimas a representante popular do Rio de Janeiro e seu assessor e motorista na ocasião do crime. Agora, o desaparecimento de Bruno e Dom mexeu com os brios das nações que se dizem civilizadas e outras instâncias internacionais. É uma pena termos que saudar e agradecer pelo empenho de governos estrangeiros e organizações internacionais em que os fatos sejam suficientemente esclarecidos. Não por que traga algo de destoante do clima gerado, estimulado e a cada dia revigorado que agentes do poder público têm imposto à sociedade brasileira. A guerra foi unilateralmente decretada, só que contra a própria população, não contra nação estrangeira. Estrangeiro, em nosso caso e neste momento, é todo brasileiro que não tenha a cor branca, seja homoafetivo, do gênero feminino e, sobretudo e ubiquamente, pobre. Também não é de lamentar, além das vidas perdidas como resposta à dedicação das vítimas a tarefas legítimas e legalmente protegidas, a disposição de periódicos, governos e instituições públicas e particulares de outros países em assunto aparentemente interno. Não o é! A morte de qualquer pessoa, onde quer que aconteça, é igual à morte de nosso parente mais próximo e amado, do vizinho, daquele que não se conhece. Afinal, somos uma sociedade pretensamente humana, a despeito de muitos quadrúpedes que pisam com as duas anteriores patas traseiras, prontos a disseminar o ódio e tudo fazer para mostrá-lo eficaz no combate dos de que não se gosta. Lamentável, portanto, é a revelação de que nos faltam brios e força para impormos por nós mesmos as condutas exigíveis dos que se instalam no poder. Poder mantido pelos tributos que nem todos pagam, não sendo estes, porém, os que usam desse mesmo poder para fazerem-se mais ricos, afortunados para toda a vida. É como se transferíssemos a responsabilidade pelas decisões que nos dizem respeito a terceiros, que têm em seus respectivos países muito com o que se preocupar. Ao mesmo tempo em que devemos agradecer por sua interferência, ainda que envergonhados, devemos pedir-lhes desculpas. Pelo que eles fizeram e têm feito, enquanto nos deixamos engabelar por aventureiros transitoriamente detentores do poder. Pior, também pedir desculpas pela qualidade do discurso e da conduta dos que nos governam, como se constituíssemos uma sociedade majoritariamente imbecilizada. Capaz não apenas de garantir os votos que levam ao poder gente de tão má índole, quanto tolerar os sigilos e segredos que cobrem de infortúnio mais de 200 milhões de seres humanos. A morte de Bruno Pereira e Dom Phillips é apenas um dos muitos exemplos infaustos deste trágico período que temos vivido. Espero, porém, que servirá para algo: ao menos, o reconhecimento de que sempre haverá o dia em que o rabo do gato será exposto.

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